segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SUA ENCARNAÇÃO


EXPLICAÇÃO DA SANTA MISSA - PARTES IV; V; VI E VII


EXPLICAÇÃO DA SANTA MISSA
Autor: pe. Martinho de Cochem (1630-1712)
Fonte: Lista "Tradição Católica"
Digitalização: Carlos Melo

IV. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SUA ENCARNAÇÃO
No capítulo precedente, tratamos sucintamente dos mistérios da santa Missa. Meditemo-los agora, uns após outros, começando pela encarnação.
Foi um inestimável benefício da divina Misericórdia, que, para nossa salvação, o Verbo descesse do céu e, pela operação do Espírito Santo, se fizesse carne no seio imaculado de Maria Santíssima. Este mistério incompreensível, o sacerdote adora-o de joelhos nas palavras do Credo: "Et incarnatus est".
Ora, Jesus Cristo não se contentou com fazer-se homem somente uma vez, antes inventou, em sua infinita sabedoria, o meio de renovar, incessantemente, a satisfação oferecida ao Pai e ao Espírito Santo pela sua primeira encarnação: instituiu a santa Missa.
A encarnação na Missa é mística, porém real. A santa Igreja dá este testemunho nas orações da Missa da 9ª dominga depois de Pentecostes dizendo por que todas as vezes que se oferece este sacrifício comemorativo, renova-se a obra de nossa redenção.
Considerando estas maravilhas, Santo Agostinho exclama: "Oh! sublime dignidade do sacerdote, em cujas mãos Jesus Cristo se encarna de novo. Oh! celeste mistério operado, tão maravilhosamente, pelo Padre, pelo Filho e pelo Espírito Santo, por intermédio do sacerdote!" (Homil. 2. in Os. 37).
Oh! dignidade dos fiéis, acrescentamos, pela salvação dos quais Jesus Cristo se faz carne, de maneira mística, diariamente! Que consolação, para nós, homens miseráveis, de sermos amados tão ternamente pelo nosso Deus!
"A Imitação de Cisto" diz: "Quando celebrares ou assistires à santa Missa, este mistério deve parecer-te tão grande, tão novo como se, nesse dia, Jesus, descendo pela primeira vez ao seio da Virgem, se fizesse homem" (Livro 4, cap. 2).
Vejamos agora como e por quantos milagres, Jesus Cristo renova sua encarnação sobre o altar.
É de fé que o sacerdote, antes da consagração, tem somente entre as mãos o pão, ao passo que, no momento de pronunciar a última palavra da consagração, esse pão, pela onipotência divina, torna-se o verdadeiro Corpo de Jesus Cristo. A esse Corpo está unido, por concomitância, o precioso Sangue, pois um corpo vivo não pode estar privado de sangue.
Não é o maior dos milagres esta transubstanciação do pão e do vinho? Não é a maravilha das maravilhas que não haja mais nem pão nem vinho, apesar de ficarem as aparências, visto que a santa Hóstia e o precioso sangue conservam a forma, a cor, o gosto, que tinham antes da transubstanciação? Não é o prodígio dos prodígios que as espécies subsistem sem aderir a cousa alguma e são conservadas sobrenaturalmente?
Santa Gertrudes aprofundava-se nestes prodígios. Um dia, enquanto se pronunciavam as palavras da consagração, disse a Deus: "Senhor, o mistério que operais agora é tão grande e tão espantoso, que, neste grau de baixeza em que estou, não ousarei levantar os olhos; abater-me-ei e colocar-me-ei na mais profunda humildade, esperando que me cedais uma parte do Sacrifício que dá a vida a todos os eleitos".
Jesus Cristo replicou-lhe: "Se dispuseres tua vontade a sofrer, voluntariamente, toda a sorte de trabalhos e penas, para que este Sacrifício, que é salutar a todos os cristãos, vivos e mortos, se cumpra plenamente e em toda excelência, terás contribuído segundo tuas forças, para o fim de minha obra" (Der heiligen Jungfrau Gertrudis Leben und Offenbarungen, t. 1, p. 174).
A exemplo de Santa Gertrudes, considera, durante a elevação, o grande milagre que Deus opera sobre o altar. Excita em ti o ardente desejo de que este Sacrifício contribua para a maior glória de Deus e a salvação de teus irmãos. Nesta intenção, repete com Santa Gertrudes: "Dulcíssimo Jesus, a obra que ides efetuar agora, é tão excelente que, em minha humilhação, não ouso contemplá-la; por isso, abismando-me em meu nada, espero também, para mim, alguma parte, visto que esta imolação será proveitosa a todos os eleitos. Oh! meu Jesus, se eu pudesse cooperar para ela, empregaria todas as minhas forças, não me espantariam as maiores penas, a fim de que este Sacrifício pudesse totalmente aproveitar aos vivos e aos mortos. Suplico-vos, bom Jesus, que concedais ao celebrante e aos assistentes todas as graças necessárias para este fim".
Consideremos a imensidade do poder consagrador que Jesus Cristo concedeu aos seus sacerdotes. O bem-aventurado Alano fala dele deste modo: "A onipotência de Deus Padre é tão grande que criou do nada o céu e a terra; mas o poder do sacerdote é tal que produz o Filho de Deus na Eucaristia e no santo Sacrifício" (Alanus de Rupe, part. 4, c. 37). Deus provou que "amou tanto ao mundo, que lhe deu o Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna", primeiramente, quando enviou seu Filho à terra, e torna a prová-lo, cada dia, fazendo de novo descer o Verbo para renovar sua encarnação na santa Missa. Pela encarnação no seio de Nossa Senhora, Jesus Cristo adquiriu imensos tesouros de graças; pela santa Missa, distribui esses tesouros a todos os que celebram, ou assistem ao santo Sacrifício.

V. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SEU NASCIMENTO
"Neste dia a suavidade correrá das montanhas e as colinas destilarão leite e mel".
É assim que a Igreja canta, por toda a terra, o doce mistério do nascimento de Cristo. Efetivamente no dia de Natal, aquele que é mais doce do que o mel, aquele que é a própria fonte de toda doçura, tudo suavizou, trouxe a verdadeira alegria, anunciou a paz aos homens de boa vontade, e consolou o mundo com a aurora de um futuro cheio de graças.
Que privilégio para os homens, poderem ver com os olhos corporais o mais belo dos filhos dos homens, apertá-lo nos braços, cobri-lo de santos beijos!
Certamente, felicidade deles era grande, mas a nossa é ainda maior, contemplando, com os olhos da fé, cada dia, o divino Menino, e participando, sem cessar, da alegria do seu nascimento. Sobre este assunto o santo Papa Leão I escreveu: "As palavras do Evangelho e as profecias nos inflamam de tal modo, que o nascimento do Cristo não nos parece um fato passado, porém um acontecimento presente. Também ouvimos a boa nova trazida aos pastores pelos Anjos: "Eis que vos anuncio uma grande alegria: hoje nasceu o Salvador" (Sermo 9, de Nativitate).
Temos a inefável felicidade de assistir a este bem-aventurado nascimento, se assistimos à santa Missa, onde tal é renovado e continuado.
E, se queres saber, caro leitor, como o Cristo nasce, lê essa passagem de São Jerônimo: "Os sacerdotes formam o Cristo pelos seus lábios consagrados", quer dizer: o Cristo nasce dos lábios do sacerdote, quando este pronuncia as palavras da consagração. Por sua vez, o Papa Gregório XIII o afirma, exortando os sacerdotes a dizerem antes de subirem no altar: "Quero celebrar a santa Missa e formar o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo".
A Igreja não cessa de recordar-nos este nascimento espiritual de Jesus Cristo, quando nos ordena entoar o cântico dos Anjos durante a santa Missa: "Glória a Deus no mais alto dos céus e paz sobre a terra aos homens de boa vontade". Que felicidade para nossa alma possuir uma fé viva, e nosso proceder para o Menino Jesus se assemelhar ao porte cheio de amor e de respeito de Maria, de S. José, dos Anjos e dos pastores!
Bem que Jesus Cristo nos oculte a beleza de sua Humanidade, contudo permanece visível aos olhos de Deus e do exército celeste. Em cada Missa, mostra-se num esplendor do qual a Santíssima Trindade recebe uma glória infinita e faz estremecer de júbilo a Santíssima Virgem, os Anjos e os Santos, como nos assegurou o bem-aventurado Alano de la Roche.
Quando os Anjos vêem o Menino Jesus nascer sobre o altar, ajoelham-se humildemente e o adoram, porque, quando Deus introduziu seu Unigênito na terra, disse: "Que todos os Anjos o adorem". É o que a Igreja canta no prefácio: "Os Anjos louvam a vossa Majestade, as Dominações a adoram, as Potestades a veneram tremendo; os céus, as Virtudes dos céus, e os bem-aventurados Serafins celebram a vossa glória com transporte de alegria".
Em união com estes espíritos celestes, agradeçamos a Nosso Senhor que, ao renovar o mistério de seu nascimento, deseja distribuir-nos também os frutos.
O espírito humano é impotente para conceber e explicar o grau de alegria que o céu experimenta na renovação do nascimento de Cristo. A própria ciência dos Anjos não basta, embora essas bem-aventuradas inteligências participem das delícias que proporciona ao céu o santo Sacrifício da Missa.
Quanto ao gozo da Santíssima Trindade, a fé nos ensina que tira de Si própria toda a beatitude. A Sagrada Escritura diz da sabedoria incriada, isto é, do Filho de Deus: "É o esplendor da luz eterna, o espelho sem mancha da Majestade divina, a imagem da sua bondade" (Sab. 7, 26).
Este espelho está desde toda a eternidade, diante dos olhos do Pai celeste que se contempla nele com infinita satisfação. Nele, vê-se eternamente o Senhor poderosíssimo, gloriosíssimo, sapientíssimo, riquíssimo, infinito de bondade e beleza.
Este conhecimento e esta contemplação incessante de sua própria pessoa são, para Ele, um gozo essencial, perfeito, bastando para manter o Pai celeste em uma beatitude infinita.
Este espelho puríssimo, pois, foi colocado, em nova forma, diante de seus olhos no nascimento do Salvador, onde o Cristo é revestido da mais nobre natureza humana, enriquecida das mais preciosas virtudes e ornada de todas as perfeições. O Pai eterno experimentou novas delícias, das quais fez participar toda a corte celeste. Palpitantes de júbilo estes espíritos bem-aventurados cantaram então um cântico melodioso, ao qual nada do que na terra se tinha ouvido era comparável, e derramou sobre os piedosos pastores as ondas de uma alegria inigualável e desconhecida. Ao canto do "Glória in excelsis", os Anjos voaram para Belém, prostraram-se ante o recém-nascido e adoraram-lhe a Divindade.
Todas estas cenas da noite de Natal se renovam cada dia na santa Missa, onde o Filho de Deus nasce da palavra do sacerdote. Não que um novo Cristo seja criado, nem sua pessoa multiplicada. O que se multiplica é sua presença, de modo que, onde sua Humanidade não estava dantes, acha-se agora de modo real, e fica debaixo das santas espécies, por tanto tempo quanto estas aparências subsistirem intactas. Se as espécies se corrompem, cessa a presença real.
O Filho unigênito de Deus nasce de novo dos lábios do sacerdote, e, por suas mãos, esse espelho imaculado ornado de tantas perfeições, é elevado para ser oferecido a Deus; que alegria, que delícias, que infinitas felicidades para o Pai celeste! Não podem ser menores que as da noite de Natal, porque, em Belém e sobre o altar, tem, diante dos olhos, aquele do qual disse: "Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho posto toda a minha complacência" (Mt. 3, 17). A única diferença é que no presépio, o Verbo estava oculto sobre a carne mortal, enquanto, na Missa, seu Corpo glorioso, ornado de suas chagas sagradas, como cinco pedras preciosas, está oculto sob as espécies sacramentais. Em Belém, nasceu corporalmente, no altar, nasce de forma mística, ainda que muito real.
Porém, Deus Padre não fica somente cheio de alegria, contemplando este espelho divino; aquele a quem contempla, seu Filho unigênito, lhe corresponde a ternura por um amor infinito, aumentando-lhe, assim a felicidade.
As delícias que a Divindade recebe da santíssima Humanidade de Cristo, excedem todas as que lhe vêm dos louvores dos Anjos, adorações dos Santos, e fidelidade dos homens, porquanto a Humanidade sagrada de Nosso Senhor, unida hipostaticamente à Divindade é a única capaz de honrar, de regozijar, de amar a Divindade conforme sua infinita grandeza. Ora, tudo isto o Salvador Jesus faz com tanta suavidade que nem os Querubins nem os Serafins o compreendem inteiramente. O céu olha cheio de assombro, de coração arrebatado, sem poder medir a extensão do divino júbilo. Como isto se reproduz em milhares de Missas, quem poderia descrever o grau de felicidade que reverte à Santíssima Trindade?
Ó Deus de glória, regozijo-me por vossa infinita felicidade, quereria mesmo aumentá-la por minha piedade, durante o santo Sacrifício. Suplico-Vos, meu Senhor Jesus Cristo, que Vos digneis, em cada Missa, de regozijar a bem-aventurada Trindade, em meu nome, e suprir, superabundantemente, o amor que tenho negligenciado de lhe manifestar, e a alegria que deveria causar-lhe.
"Um pequenino nos nasceu, e um filho nos foi dado" (Is. 9, 6). Esta profecia de Isaias que anunciava o nascimento de Jesus Cristo, deve-se aplicar também à santa Missa. Nela uma criancinha nos é nascida, e um filho nos é dado. Ó rico e piedoso dom! Este menino é o Filho de Deus. Chega de um país longínquo, do paraíso celeste; traz-nos incomparáveis riquezas, a graça, a divina misericórdia, o perdão de nossos pecados, a remissão das penas, a emenda de vida, o benefício de uma morte, o acréscimo da glória futura, bênçãos temporais, um preservativo eficaz contra o pecado.
O texto de Isaías encerra um outro assunto de consolação. O profeta diz, expressamente, que "nasceu-nos um menino, e nos foi dado um filho". Isto significa que, nascendo de novo na consagração Jesus se torna nossa propriedade com tudo o que é, tudo o que tem, tudo o que opera sobre o altar. Portanto, a honra, as ações de graças, as satisfações que oferece à Santíssima Trindade são para nós. Que maior consolação para os que ouvem a santa Missa do que este pensamento: Jesus está para mim!?
Se tivesses estado durante a noite de Natal na gruta de Belém, tomado o doce Menino Jesus em teus braços, e o tivesses oferecido a seu Pai celeste, elevando-o para Ele e suplicando-Lhe que tivesse piedade de ti por amor desse pequenino, pensas que Deus pudesse repelir-te e ficar surdo a tua voz? Não, certamente. Faze, pois, o mesmo durante a Missa, sobretudo no tempo do Advento e do Natal, encaminha-te em espírito para o altar, toma o Menino Jesus, oferece-o a Deus Padre.
Outro ponto importantíssimo é este: O Cristo não somente nasce sobre o altar de maneira mística, mas também toma uma forma tão humilde, que causa admiração ao céu e à terra. Em seu primeiro nascimento, humilhara-se infinitamente, tomando a forma de servo, entretanto, ainda era uma forma humana. Em seu nascimento místico, escolheu humilhação ainda maior, aniquilou-se debaixo das aparências do pão!
Que humilhação inaudita! Que há de mais insignificante que uma espécie sacramental, acidente sem substância? Olhai bem a suprema modéstia de Jesus! Onde lhe está a glória? Onde lhe está a Majestade soberana que faz tremer o céu? Renunciou a tudo isto! Aquele que ocupa um trono à direita do Pai eterno, repousa sobre o altar, ligado como o Cordeiro de sacrifício. Ó abismo insondável de humildade! Ó amor incomparável do mais fiel, do mais amante dos homens.
Para que este excesso de humildade? Uma das razões principais é desarmar a cólera de seu Pai celeste, e desviar dos pecadores um justo castigo.
Não há melhor meio de aplacar o inimigo do que se humilhar em sua presença e pedir-lhe perdão. O proceder de Acab fornece-nos uma prova. Quando o profeta Elias anunciou a este rei ímpio que o Senhor o puniria de morte súbita assim como a sua mulher e a seus filhos, e que seus corpos, privados de sepultura, seriam devorados pelos cães e corvos, "humilhou-se Acab ante o Senhor, rasgou as vestes, cobriu a carne com um cilício, jejuou, dormiu num saco e caminhou cabisbaixo". Então o Senhor dirigiu a palavra a Elias e disse: "Não viste Acab humilhado diante de mim? Já que se humilhou por minha causa, não farei cair sobre ele os males de que o ameacei" (III Reis, 21, 27-29).
Se Acab, "ao qual nunca houve igual em impiedade", segundo a Sagrada Escritura, por sua humilhação, levou Deus Todo-Poderoso a suspender a sentença pronunciada contra ele, o que não obterá junto a Deus a humilhação de Jesus Cristo sobre o altar? Não é mais tocante neste estado de aniquilamento em que o colocou seu amor pelos homens? Vede-o, despojado de suas vestes de gala, oculto sob a aparência da Santa Hóstia não somente curva a cabeça, está atado como holocausto e, do fundo do coração, pede para nós perdão e misericórdia! A este espetáculo, Deus diz a seus Anjos, como outrora dissera a Elias: "Vistes como meu Filho se humilhou diante de mim?". Os Anjos respondem: "Sim, Senhor, vimo-lo, e ficamos admirados". E o Pai celeste continua: "Pois que meu Filho aniquilou-se deste modo, não me vingarei dos pecadores, nem os punirei conforme suas iniqüidades".
Meditemos estas palavras e estejamos persuadidos de que, se Deus não abrevia a vida do culpado, se não o castiga segundo a medida de suas iniqüidades, o pecador deve-o à santa Missa, onde participou da reparação de Jesus Cristo. O Salvador clementíssimo advogou-lhe a causa, humilhou-se em seu lugar e deteve o braço vingador da divina justiça.

VI. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SUA VIDA
Entre as coisas que encantam os sentidos, o teatro deve ser colocado em primeiro lugar.
Os homens acham-lhe tal prazer que gastam, para assistir às representações teatrais, muito tempo e muito dinheiro.
Se quiséssemos considerar, atentamente, os grandes mistérios da Missa e persuadir-nos que Jesus Cristo se aproxima do altar como ornado de suas vestes de festa, para aí reproduzir, à nossa vista, as cenas de sua vida maravilhosa, correríamos para a igreja ao primeiro toque do sino.
Mas, oh! loucura do mundo, quantos preferem jogar os bens aos comediantes a assistir à santa Missa, onde riquíssima recompensa é concedida a todo e qualquer espectador piedoso!
Responder-me-ás, talvez, caro leitor: "Não é de admirar que as pessoas frívolas prefiram assistir à comédia; querem distrair-se, e, na santa Missa, nada lhes encanta os olhos e os ouvidos".
Oh triste cegueira! Se essas pessoas superficiais tivessem os olhos da fé, gozariam da santa Missa profundamente, porque é o resumo da vida do Salvador e a reprodução de todos os seus mistérios. Não é somente uma representação poética de fatos passados, como seria um drama; é uma repetição verídica do que Jesus Cristo fez e sofreu sobre a terra.
Com efeito, na santa Missa, temos diante de nós o divino Menino, envolto em panos, como o acharam os pastores, qual os Magos vieram adorar, e qual Maria Santíssima colocou nos braços do velho Simeão. O mesmo divino Infante repousa sobre o altar e espera nossas homenagens e nosso amor. Ao Evangelho, esse mesmo Jesus repete-nos sua doutrina pela boca do sacerdote, com o mesmo proveito para a alma crente, que se lhe viesse dos próprios lábios.
Vemo-lo fazer um milagre maior que o de Caná, porque é mais admirável mudar o vinho em sangue, do que a água em vinho. É a renovação da última Ceia e de sua morte na Cruz. As mãos dos algozes não o atingem, porém as do sacerdote oferecem-no, como vítima expiatória, ao eterno Pai.
Aquele que sabe tirar proveito da santa Missa, pode receber dela o perdão dos seus pecados e a abundância das graças celestes.
"Toda a vida de Cristo, diz S. Dionísio, o Cartucho, não foi mais do que uma Missa solene, em que foi Ele o templo, o altar, o sacerdote e a vítima" (Vida sacerdotum, Antwerpiae, Vostermann, 1751).
Na verdade, Jesus Cristo revestiu-se das vestes sacerdotais no santuário do seio materno, onde nos tomou a carne e com ela a vestimenta da nossa mortalidade. Saiu desse santuário na noite sagrada do Natal e começou o "Introito", entrando no mundo. Entoou o "Kyrie eleison", lançando os primeiros vagidos no presépio; o "Glória in excelsis" foi entoado pelos Anjos, quando apareceram aos pastores, e, convidando-os a misturar seus louvores com os deles, conduziram-nos ao berço do recém-nascido.
Jesus disse a "Coleta" em suas vigílias noturnas, onde implorava a misericórdia divina para nós. Leu a "Epístola", quando explicava Moisés e os profetas, demonstrando que os tempos eram findos. Anunciou o "Evangelho", quando percorria a Judéia a pregar a boa nova. Fez o "Ofertório", quando, no mistério da apresentação, ofereceu-se a seu Pai pela salvação do mundo. Cantou o "Prefácio", louvando, por nós, a Deus sem cessar e agradecendo-lhe os benefícios.
O "Sanctus" foi entoado pelos hebreus, no dia de Ramos, quando, na entrada de Jesus em Jerusalém, clamavam: "Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana ao Filho de David!"
A "Consagração", o Salvador efetuou-a na última Ceia, pela transformação do pão e do vinho em seu Corpo e em seu Sangue. A "Elevação" realizou-se, quando foi pregado na Cruz, elevado nos ares e exposto em espetáculo aos olhos do mundo. O "Pater Noster", Jesus o disse na Cruz, pronunciando as sete palavras. A "fração da Hóstia" cumpriu-se, quando sua alma santíssima separou-se de seu corpo adorável. O "Agnus Dei", o centurião o disse no momento em que exclamou: "Verdadeiramente, este homem é o Filho de Deus!". A santa "Comunhão" foi o embalsamamento e a sepultura. A "bênção" no fim, Jesus a deu no monte das oliveiras, estendendo as mãos sobre os discípulos na ocasião da ascensão.
Eis a Missa solene celebrada por Jesus Cristo sobre a terra!
Ordenou que seus apóstolos e, depois deles, todos os sacerdotes, dissessem esta Missa, cada dia, ainda que mais resumida.
Somos, pois, tão favorecidos, e talvez mais do que os que viveram no tempo de Jesus. Eles ouviram uma única Missa, cujas partes foram celebradas em longos intervalos, enquanto nós podemos, cada dia, assistir a muitas e recolher, em pouco tempo, os frutos de toda a vida do Salvador.
Caro leitor, repassa, muitas vezes em teu espírito, a utilidade do santo Sacrifício da Missa, onde Jesus Cristo te faz participar dos méritos infinitos de sua santíssima vida e de sua paixão. Se fosse tão fácil adquirir bens temporais, não perderíamos um instante e não pouparíamos trabalho. Como, pois, somos tão pouco diligentes, quando se trata das riquezas eternas e dos tesouros que nem a ferrugem nem os ladrões podem nos arrebatar?

VII. NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA A SUA ORAÇÃO
"Temos, por advogado, junto ao Pai, Jesus Cristo, que é justo e santo; porque é a vítima de propalação por nossos pecados" (I Jo., 2, 1).
De certo é consoladora garantia de nossa Salvação, termos por advogado o próprio Filho de Deus, o Juiz dos vivos e dos mortos! Mas onde e quando Jesus Cristo desempenhou este ofício?
A Igreja ensina ser Ele nosso advogado não somente no céu, mas também na terra.
Eis a doutrina de Suarez: "Cada vez que o santo Sacrifício da Missa é oferecido, Jesus Cristo intercede por quem o oferece e também pelas pessoas em cuja intenção é oferecido" (Tom. 3, disp. 79, sect. 21).
S. Lourenço Justiniano descreve assim a maneira de orar de Nosso Senhor: "Enquanto o Cristo é imolado sobre o altar, clama a seu Pai e mostra-lhe suas chagas para preservar os homens da condenação eterna".
Este zelo do Sagrado Coração pela nossa salvação foi indicado por Lucas: "Jesus subiu ao monte para fazer oração, onde passou a noite, orando a Deus".
E noutro lugar: "De dia, ensinava no templo, e de noite, retirava-se à montanha, chamada das Oliveiras". Ou então: "Foi segundo seu costume, ao monte das Oliveiras, para nele orar".
Isto diz, claramente, que Jesus tinha o costume de passar a noite em oração. Durante sua peregrinação, cada um de seus atos era acompanhado da oração; no término desta santa vida, o adeus aos discípulos foi a oração suprema do Sumo Sacerdote por excelência; suspenso na Cruz, orava por seus inimigos e, quando chegou o momento de voltar ao Pai celeste, levantou a mão sobre os discípulos, em uma última bênção, e subiu ao céu, onde seu Coração continua a interceder pelo gênero humano.
Ora, na santa Missa, Jesus dirige a seu Pai todas estas orações reunidas; mostra-Lhe as lágrimas, os gemidos que as acompanharam; enumera as noites passadas em jejum e oração; oferece todos esses méritos pela salvação do mundo, particularmente por cada um dos que assistem à Missa. Ó Deus, que eficaz oração! Como o perfume do incenso, eleva-se para o Pai celeste, para o trono da Santíssima Trindade! Jesus Cristo não ora somente, imola-se também pela salvação do mundo.
Santa Gertrudes explica este mistério do seguinte modo: "Vi, na elevação, Nosso Senhor erguer, com as próprias mãos e sob a forma de um cálice, o dulcíssimo Coração que apresentou a seu Pai. Imolou-se então em favor de sua Igreja, de maneira incompreensível à criatura". Jesus isto confirmou, quando disse a Santa Matilde: "Eu somente sei e compreendo, perfeitamente, como me ofereço cada dia a meu Pai pela salvação dos fiéis; nem os Querubins nem os Serafins nem as Potestades podem concebe-lo inteiramente".
Notai que Nosso Senhor não se oferece na santa Missa com a majestade que tem no céu, porém em uma incomparável humilhação. Do abismo de sua humildade, a voz eleva-se-lhe tão poderosa para o céu que traspassa as nuvens e atinge o trono da misericórdia.
Quando o rei de Nínive teve conhecimento dos castigos que ameaçavam a cidade no prazo de quarenta dias, levantou-se do trono, despiu as vestes reais, cobriu-se de roupas de luto, deitou cinza sobre a cabeça e pediu a todo o povo que implorasse a misericórdia divina.
Por esta humildade e esta penitência, o rei pagão obteve perdão para si e para a cidade culpada.
Que não obterá Jesus Cristo, que se humilha muito mais na santa Missa, em que, deixando o trono de sua glória, reveste as pobres aparências do pão e do vinho e clama ao Deus de misericórdia: "Graça e perdão para meu povo! Meu Pai, considera minha abjeção; eis-me aqui diante de Vós, não como um homem, mas semelhante a um verme da terra. Os pecadores levantam-se contra Vós cheios de orgulho. Eu me humilho em Vossa presença. Eles Vos irritam, eu, por meu aniquilamento, quero aplacar-Vos. Eles clamam sobre si Vossa justa vingança, eu quero desvia-La por minhas instantes súplicas. Tende piedade deles por amor de mim, meu Pai, e não os castigueis à medida de suas iniqüidades. Não os entregueis a Satanás, porque são meus, resgatei-os com o preço de meu Sangue. E, Pai Santíssimo, imploro, sobretudo, a Vossa misericórdia em favor dos pecadores aqui presentes, pelos quais renovo, durante esta Missa, minha vida e minha morte. Dignai-Vos, em virtude de meu Sangue e de minha morte, preservá-los da morte eterna".
Oh Jesus, até onde vos arrasta o amor para conosco e por que meio poderíamos melhor corresponde-lo senão assistindo, cheios de piedade, à santa Missa?
Quando o divino Salvador se achou suspenso na Cruz, recomendou a seu Pai os fiéis que estavam no pé da árvore da Salvação e lhes aplicou, mui especialmente, os preciosos frutos. Do mesmo modo, ora pelos assistentes, principalmente pelos que recorrem à sua mediação. Ora por eles tão ardentemente, como o fez no momento de sua morte, pelos seus inimigos.
Oh poderosa oração! Quanto não fortifica a esperança da vida eterna, vermos o mesmo Filho de Deus tomar nas mãos os interesses de nossa salvação!
Se a Santíssima Virgem te aparecesse e dissesse: "Não temas, meu filho, prometo-te encarregar-me de teus interesses; pedirei, instantemente, a meu Filho, Jesus Cristo, e não cessarei de pedir até que Ele me assegure tua felicidade eterna", a tua alma não ficaria transportada de júbilo e não exclamaria: "Agora estou consolado, não tenho que duvidar, minha salvação está segura"?
Se temos, pois, uma tão grande confiança na intercessão de Maria Santíssima, por quê esta confiança não será absoluta, quando se trata da intercessão de seu divino Filho, que não promete somente o socorro, mas ora por nós em cada Missa que ouvimos, e faz, por assim dizer, violência à Justiça de Deus, para nos poupar o castigo merecido?
E não era somente. Com ele intercedem, como outras tantas vozes, suas lágrimas, suas chagas, seu sangue, todos os seus suspiros de amor. Quem poderá medir o efeito dessas súplicas sobre o coração do Pai celeste?
Muitas vezes te lastimas da falta de fervor em tuas orações. Na santa Missa, Jesus Cristo orará contigo e suprirá a imperfeição de tua oração. Escuta como convida a todos afetuosamente:
"Vinde a mim vós que sofreis e vos achais em tribulações" (Mt. 11, 28); isto é: vós todos que não podeis orar com ardor, vinde a mim e orarei por vós. Por quê, alma aflita e atribulada, não te rendes a este tão terno convite? Por que não corres à santa Missa?
Em tuas tribulações recorres a amigos para pedir-lhes uma oração. Que é, todavia, a oração dos homens comparada com a oração e intercessão de Jesus Cristo? Tua miséria é extrema, o perigo de tua condenação, iminente. Dize, pois, a Jesus: "Senhor, quem poderá salvar-se?" e Ele responder-te-á: "O que é impossível aos homens é fácil a Deus".
Recorre, pois, a este Deus Salvador que quer te assegurar uma morada na casa de seu Pai.
"Como?, talvez digas, um pobre indigente como eu, pode reclamar as orações do Filho de Deus? Sou indigno disso, e não o ousarei". - oh, não fales deste modo! Convence-te que um só de teus suspiros te dá todo o poder sobre seu Coração. São Paulo o afirma: "O pontífice que temos, não é tal que não possa compadecer-se de nossas fraquezas, porque todo o pontífice é tomado dentre os homens e é estabelecido para os homens no que diz respeito ao culto de Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados".
Jesus Cristo é pontífice, exerce o sacerdócio na santa Missa, sua missão é, portanto, orar pelo povo e oferecer o sacrifício por ele; e não se desobriga desta missão por todos em geral, mas por cada um em particular; assim como sofreu por todos e por cada um, assim se interessa por cada alma de tal sorte, como se fosse a única a salvar.
Eis o zelo, o poder da oração de Jesus no santo altar. Juntemos-lhe nossas pobres súplicas e elas se tornarão excelentes. "As orações feitas em união com o Santo Sacrifício da Missa, disse o bispo Fornero de Hebron, são mais poderosas que todas as outras, mesmo do que as que duram longas horas, e até as orações extáticas, por causa da paixão e morte do Senhor que lhe manifestam a eficácia na santa Missa, por uma admirável efusão de graças. Porque, como a cabeça ultrapassa, em dignidade, todas as outras partes do corpo, assim a oração de Jesus Cristo, que é nossa cabeça, ultrapassa as orações de todos os cristãos, que são os membros de seu corpo místico.
Uma moeda de cobre torna-se preciosa, se é lançada no ouro em fusão; a pobre oração do homem, unida à de seu Salvador, adquire um caráter de alta nobreza e pode ser ofertada como um dom agradável à divina Majestade. Deste modo, uma oração menos fervorosa, oferecida na Missa, vale mais que uma oração fervorosa feita em casa.
Muitos se prejudicam os que, podendo assistir à santa Missa e, durante esta, ocupar-se com os exercícios de piedade que costumam fazer em casa, se afastam do santo Sacrifício. Porque, se fizessem as orações durante a santa Missa com a intenção de assisti-la e somente durante os momentos da consagração interrompessem as orações, a fim de adorar o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor, ganhariam graças e méritos muito maiores do que se rezam em seu oratório particular.


NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SEU NASCIMENTO


NA SANTA MISSA, JESUS CRISTO RENOVA SEU NASCIMENTO



          Por pe. Martinho de Cochem

"Neste dia a suavidade correrá das montanhas e as colinas destilarão leite e mel".

É assim que a Igreja canta, por toda a terra, o doce mistério do nascimento de Cristo. Efetivamente no dia de Natal, aquele que é mais doce do que o mel, aquele que é a própria fonte de toda doçura, tudo suavizou, trouxe a verdadeira alegria, anunciou a paz aos homens de boa vontade, e consolou o mundo com a aurora de um futuro cheio de graças.

Que privilégio para os homens, poderem ver com os olhos corporais o mais belo dos filhos dos homens, apertá-lo nos braços, cobri-lo de santos beijos!

Certamente, felicidade deles era grande, mas a nossa é ainda maior, contemplando, com os olhos da fé, cada dia, o divino Menino, e participando, sem cessar, da alegria do seu nascimento. Sobre este assunto o santo Papa Leão I escreveu: "As palavras do Evangelho e as profecias nos inflamam de tal modo, que o nascimento do Cristo não nos parece um fato passado, porém um acontecimento presente. Também ouvimos a boa nova trazida aos pastores pelos Anjos: "Eis que vos anuncio uma grande alegria: hoje nasceu o Salvador"(Sermo 9, de Nativitate).

Temos a inefável felicidade de assistir a este bem-aventurado nascimento, se assistimos à santa Missa, onde tal é renovado e continuado.
E, se queres saber, caro leitor, como o Cristo nasce, lê essa passagem de São Jerônimo:
"Os sacerdotes formam o Cristo pelos seus lábios consagrados", quer dizer: o Cristo nasce dos lábios do sacerdote, quando este pronuncia as palavras da consagração. Por sua vez, o Papa Gregório XIII o afirma, exortando os sacerdotes a dizerem antes de subirem no altar: "Quero celebrar a santa Missa e formar o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo".

A Igreja não cessa de recordar-nos este nascimento espiritual de Jesus Cristo, quando nos ordena entoar o cântico dos Anjos durante a santa Missa: "Glória a Deus no mais alto dos céus e paz sobre a terra aos homens de boa vontade". Que felicidade para nossa alma possuir uma fé viva, e nosso proceder para o Menino Jesus se assemelhar ao porte cheio de amor e de respeito de Maria, de S. José, dos Anjos e dos pastores!

Bem que Jesus Cristo nos oculte a beleza de sua Humanidade, contudo permanece visível aos olhos de Deus e do exército celeste. Em cada Missa, mostra-se num esplendor do qual a Santíssima Trindade recebe uma glória infinita e faz estremecer de júbilo a Santíssima Virgem, os Anjos e os Santos, como nos assegurou o bem-aventurado Alano de la Roche.

Quando os Anjos vêem o Menino Jesus nascer sobre o altar, ajoelham-se humildemente e o adoram, porque, quando Deus introduziu seu Unigênito na terra, disse:"Que todos os Anjos o adorem". É o que a Igreja canta no prefácio: "Os Anjos louvam a vossa Majestade, as Dominações a adoram, as Potestades a veneram tremendo; os céus, as Virtudes dos céus, e os bem-aventurados Serafins celebram a vossa glória com transporte de alegria".

Em união com estes espíritos celestes, agradeçamos a Nosso Senhor que, ao renovar o mistério de seu nascimento, deseja distribuir-nos também os frutos.
O espírito humano é impotente para conceber e explicar o grau de alegria que o céu experimenta na renovação do nascimento de Cristo. A própria ciência dos Anjos não basta, embora essas bem-aventuradas inteligências participem das delícias que proporciona ao céu o santo Sacrifício da Missa.

Quanto ao gozo da Santíssima Trindade, a fé nos ensina que tira de Si própria toda a beatitude. A Sagrada Escritura diz da sabedoria incriada, isto é, do Filho de Deus: "É o esplendor da luz eterna, o espelho sem mancha da Majestade divina, a imagem da sua bondade" (Sab. 7, 26).
Este espelho está desde toda a eternidade, diante dos olhos do Pai celeste que se contempla nele com infinita satisfação. Nele, vê-se eternamente o Senhor poderosíssimo, gloriosíssimo, sapientíssimo, riquíssimo, infinito de bondade e beleza.
Este conhecimento e esta contemplação incessante de sua própria pessoa são, para Ele, um gozo essencial, perfeito, bastando para manter o Pai celeste em uma beatitude infinita.

Este espelho puríssimo, pois, foi colocado, em nova forma, diante de seus olhos no nascimento do Salvador, onde o Cristo é revestido da mais nobre natureza humana, enriquecida das mais preciosas virtudes e ornada de todas as perfeições. O Pai eterno experimentou novas delícias, das quais fez participar toda a corte celeste. Palpitantes de júbilo estes espíritos bem-aventurados cantaram então um cântico melodioso, ao qual nada do que na terra se tinha ouvido era comparável, e derramou sobre os piedosos pastores as ondas de uma alegria inigualável e desconhecida. Ao canto do "Glória in excelsis", os Anjos voaram para Belém, prostraram-se ante o recém-nascido e adoraram-lhe a Divindade.

Todas estas cenas da noite de Natal se renovam cada dia na santa Missa, onde o Filho de Deus nasce da palavra do sacerdote. Não que um novo Cristo seja criado, nem sua pessoa multiplicada. O que se multiplica é sua presença, de modo que, onde sua Humanidade não estava dantes, acha-se agora de modo real, e fica debaixo das santas espécies, por tanto tempo quanto estas aparências subsistirem intactas. Se as espécies se corrompem, cessa a presença real.

O Filho unigênito de Deus nasce de novo dos lábios do sacerdote, e, por suas mãos, esse espelho imaculado ornado de tantas perfeições, é elevado para ser oferecido a Deus; que alegria, que delícias, que infinitas felicidades para o Pai celeste! Não podem ser menores que as da noite de Natal, porque, em Belém e sobre o altar, tem, diante dos olhos, aquele do qual disse: "Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho posto toda a minha complacência" (Mt. 3, 17).
A única diferença é que no presépio, o Verbo estava oculto sobre a carne mortal, enquanto, na Missa, seu Corpo glorioso, ornado de suas chagas sagradas, como cinco pedras preciosas, está oculto sob as espécies sacramentais. Em Belém, nasceu corporalmente, no altar, nasce de forma mística, ainda que muito real.

Porém, Deus Padre não fica somente cheio de alegria, contemplando este espelho divino; aquele a quem contempla, seu Filho unigênito, lhe corresponde a ternura por um amor infinito, aumentando-lhe, assim a felicidade.

As delícias que a Divindade recebe da santíssima Humanidade de Cristo, excedem todas as que lhe vêm dos louvores dos Anjos, adorações dos Santos, e fidelidade dos homens, porquanto a Humanidade sagrada de Nosso Senhor, unida hipostaticamente à Divindade é a única capaz de honrar, de regozijar, de amar a Divindade conforme sua infinita grandeza. Ora, tudo isto o Salvador Jesus faz com tanta suavidade que nem os Querubins nem os Serafins o compreendem inteiramente. O céu olha cheio de assombro, de coração arrebatado, sem poder medir a extensão do divino júbilo. Como isto se reproduz em milhares de Missas, quem poderia descrever o grau de felicidade que reverte à Santíssima Trindade?

Ó Deus de glória, regozijo-me por vossa infinita felicidade, quereria mesmo aumentá-la por minha piedade, durante o santo Sacrifício. Suplico-Vos, meu Senhor Jesus Cristo, que Vos digneis, em cada Missa, de regozijar a bem-aventurada Trindade, em meu nome, e suprir, superabundantemente, o amor que tenho negligenciado de lhe manifestar, e a alegria que deveria causar-lhe.

"Um pequenino nos nasceu, e um filho nos foi dado" (Is. 9, 6). Esta profecia de Isaias que anunciava o nascimento de Jesus Cristo, deve-se aplicar também à santa Missa. Nela uma criancinha nos é nascida, e um filho nos é dado. Ó rico e piedoso dom! Este menino é o Filho de Deus. Chega de um país longínquo, do paraíso celeste; traz-nos incomparáveis riquezas, a graça, a divina misericórdia, o perdão de nossos pecados, a remissão das penas, a emenda de vida, o benefício de uma morte, o acréscimo da glória futura, bênçãos temporais, um preservativo eficaz contra o pecado.

O texto de Isaías encerra um outro assunto de consolação. O profeta diz, expressamente, que "nasceu-nos um menino, e nos foi dado um filho". Isto significa que, nascendo de novo na consagração Jesus se torna nossa propriedade com tudo o que é, tudo o que tem, tudo o que opera sobre o altar. Portanto, a honra, as ações de graças, as satisfações que oferece à Santíssima Trindade são para nós. Que maior consolação para os que ouvem a santa Missa do que este pensamento: Jesus está para mim!?

Se tivesses estado durante a noite de Natal na gruta de Belém, tomado o doce Menino Jesus em teus braços, e o tivesses oferecido a seu Pai celeste, elevando-o para Ele e suplicando-Lhe que tivesse piedade de ti por amor desse pequenino, pensas que Deus pudesse repelir-te e ficar surdo a tua voz? Não, certamente. Faze, pois, o mesmo durante a Missa, sobretudo no tempo do Advento e do Natal, encaminha-te em espírito para o altar, toma o Menino Jesus, oferece-o a Deus Padre.

Outro ponto importantíssimo é este: O Cristo não somente nasce sobre o altar de maneira mística, mas também toma uma forma tão humilde, que causa admiração ao céu e à terra. Em seu primeiro nascimento, humilhara-se infinitamente, tomando a forma de servo, entretanto, ainda era uma forma humana. Em seu nascimento místico, escolheu humilhação ainda maior, aniquilou-se debaixo das aparências do pão!

Que humilhação inaudita! Que há de mais insignificante que uma espécie sacramental, acidente sem substância? Olhai bem a suprema modéstia de Jesus! Onde lhe está a glória? Onde lhe está a Majestade soberana que faz tremer o céu? Renunciou a tudo isto! Aquele que ocupa um trono à direita do Pai eterno, repousa sobre o altar, ligado como o Cordeiro de sacrifício. Ó abismo insondável de humildade! Ó amor incomparável do mais fiel, do mais amante dos homens.

Para que este excesso de humildade? Uma das razões principais é desarmar a cólera de seu Pai celeste, e desviar dos pecadores um justo castigo.

Não há melhor meio de aplacar o inimigo do que se humilhar em sua presença e pedir-lhe perdão. O proceder de Acab fornece-nos uma prova. Quando o profeta Elias anunciou a este rei ímpio que o Senhor o puniria de morte súbita assim como a sua mulher e a seus filhos, e que seus corpos, privados de sepultura, seriam devorados pelos cães e corvos, "humilhou-se Acab ante o Senhor, rasgou as vestes, cobriu a carne com um cilício, jejuou, dormiu num saco e caminhou cabisbaixo". Então o Senhor dirigiu a palavra a Elias e disse: "Não viste Acab humilhado diante de mim? Já que se humilhou por minha causa, não farei cair sobre ele os males de que o ameacei" (III Reis, 21, 27-29).

Se Acab, "ao qual nunca houve igual em impiedade", segundo a Sagrada Escritura, por sua humilhação, levou Deus Todo-Poderoso a suspender a sentença pronunciada contra ele, o que não obterá junto a Deus a humilhação de Jesus Cristo sobre o altar? Não é mais tocante neste estado de aniquilamento em que o colocou seu amor pelos homens? Vede-o, despojado de suas vestes de gala, oculto sob a aparência da Santa Hóstia não somente curva a cabeça, está atado como holocausto e, do fundo do coração, pede para nós perdão e misericórdia! A este espetáculo, Deus diz a seus Anjos, como outrora dissera a Elias: "Vistes como Meu Filho se humilhou diante de mim?". Os Anjos respondem:"Sim, Senhor, vimo-lo, e ficamos admirados". E o Pai celeste continua: "Pois que meu Filho aniquilou-se deste modo, não me vingarei dos pecadores, nem os punirei conforme suas iniqüidades".

Meditemos estas palavras e estejamos persuadidos de que, se Deus não abrevia a vida do culpado, se não o castiga segundo a medida de suas iniqüidades, o pecador deve-o à santa Missa, onde participou da reparação de Jesus CristoO Salvador clementíssimo advogou-lhe a causa, humilhou-se em seu lugar e deteve o braço vingador da divina justiça.


Preparar o Natal e a Santa Missa ad Orientem



O Natal está a chegar. O frio, as luzes nas ruas. No próximo Domingo a Igreja celebrará o último Domingo do Tempo Comum - o Domingo de Cristo Rei.

Na verdade, a Igreja, na sua liturgia de Advento, prepara melhor que ninguém as pessoas para o Natal.

No Nebraska (USA), na diocese de Lincoln, o Bispo James Conley emitiu um comunicado oficial. Ele explica que neste Advento 2014 vai aproveitar ainda melhor a liturgia para preparar para o Natal.
Deixamos aqui um pequeno excerto.

"Desde tempos antigos, os Cristãos voltaram-se para Este durante o Santo Sacrifício da Missa para se lembrarem de olharem para Cristo.Juntos, o sacerdote e o povo viravam-se juntos para oriente, esperando e vigiando por Cristo. Mesmo nas igrejas que estavam voltadas para oriente, o sacerdote e o povo mantinham-se juntos na Missa a olhar para Cristo no crucifixo, no altar e no sacrário, para lembrar a importância de esperar pelo seu regresso. O simbolismo do sacerdote e do povo voltados ad orientem - para o oriente - é uma lembrança memorial do regresso de Cristo. 
Recentemente, tornou-se normal para o sacerdote e para o povo estarem virados uns para os outros durante o Santo Sacrifício da Missa. O sacerdote coloca-se atrás do altar enquanto consagra a Eucaristia voltado para o povo. O povo vê a cara do sacerdote enquanto ele reza e ele vê as caras das pessoas.Esta forma pode ter também um simbolismo importante. Lembra-nos que somos uma comunidade - um corpo em Cristo. E pode lembrar-nos que a Eucaristia, no centro da assembleia, também deve ser o centro das nossas famílias e das nossas vidas
Mas o simbolismo de olhar juntos e esperar por Cristo é rico, tem imensa história e é importante.Especialmente durante o Advento, enquanto esperamos a vinda do Senhor, voltarmo-nos juntos para oriente - mesmo simbolicamente voltados juntos para Cristo no altar e no crucifixo - é um testemunho poderoso da vinda imininente de CristoHoje, num tempo em que é fácil esquecer que Cristo está a vir - e fácil ser complacentes com as nossas vidas espirituais e com o trabalho da evangelização - precisamos de coisas que nos lembrem que Cristo virá. 
Durante os Domingos do Advento, os sacerdotes na Catedral de Cristo Ressuscitado (Cathedral of the Risen Christvão celebrar a Missa ad orientem. Com o povo de Deus, o sacerdote estará voltado para o altar e para o crucifixo. Quando eu celebrar a Missa do Galo no Natal, vou também celebrarad orientem. Isto também poderá acontecer noutras paróquias da Diocese de Lincoln. 
Na postura ad orientem da Missa, o sacerdote não está virado de costas para o povo. Ele vai estar com ele - no meio das pessoas e a conduzi-las - voltado para Cristo e a aguardar o seu regresso."
O texto completo pode ser encontrado aqui.
Papa Francisco celebra a Santa Missa ad Orientem.
via patheos.com/blogs/deaconsbench/

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

HOJE É A FESTA DE São João Crisóstomo

«São João Crisóstomo»
ão João Crisóstomo nasceu na cidade de Antioquia. Cresceu no meio da multidão sem deixar-se contaminar por ela. Conheceu os pobres e desafortunados e soube amá-los como eram. Sua família era culta e possuía muitos bens . O pai de João, oficial de alto nível, morrera jovem.
Desde criança foi educado pela mãe, mulher admirável que, aos vinte anos, sacrificou sua juventude, renunciou a novas núpcias, para dedicar-se inteiramente a seu filho. João recebeu o Batismo mais ou menos aos dezoito anos de idade.
Concluídos seus estudos de cultura geral, de retórica e de filosofia, de forma brilhante, renunciou a uma carreira que se apresentava promissora, para receber as ordens menores. Quis partir para o deserto, mas sua mãe, que por ele sacrificara tudo, não lho permitiu. Fugiu, então, da agitação de Antioquia e estabeleceu-se fora das portas da cidade, a fim de encontrar a paz, consagrando-se à ascese e ao estudo bíblico.
Antioquia era um centro teológico de grande reputação. João lá aprende de forma brilhante a exegese bíblica. Depois passou a viver nas montanhas entre monges uma vida austera a ponto de prejudicar sua saúde. Após algum tempo nas montanhas, achou-se preparado para enfrentar a ação missionária. O amor aos outros, mais do que sua saúde abalada, fê-lo voltar a Antioquia, onde o bispo Melécio o ordenou diácono, em 381.
Escreveu aos 34 anos o tratado sobre o Sacerdócio, que é conhecido e estudado até os nossos dias. Com 39 anos foi ordenado padre. Consagrou-se à pregação, substituindo o bispo, nas homilias pois esse era pouco dotado para falar.
Durante doze anos, pregou ao povo contra o paganismo e tinha esperança de transformá-lo em gente de fé cristã. É dele a frase: "Basta um só homem, para reformar todo um povo."
Sua tarefa era séria. Precisava denunciar os abusos existentes no interior da Igreja e na sociedade; defender os pobres, clamar contra as injustiças sociais. Manteve ainda uma intensa atividade literária, respondendo a todos os que lhe pediam conselho.
A maioria de suas homilias era comentários a respeito do Antigo e o Novo Testamento : explicou o Gênesis, comentou Isaías e os Salmos. O que fazia com mais agrado era pregar sobre o Evangelho. Comentou longamente o de Mateus e o de João. São Paulo era seu autor preferido: sentia afinidade com o Apóstolo dos gentios. Cognominaram-no de o "novo Paulo".
Resta-nos, de João Crisóstomo, uma série de catequeses batismais, que preparavam os catecúmenos para o batismo. As últimas foram reencontradas em 1955, no monte Atos. João Crisóstomo era um orador nato e igualmente um moralista que analisava os segredos do coração em profundidade e com rara psicologia. O povo de Antioquia sabia que João só repreendia para corrigir e para converter.
Inúmeras vezes João tomou a defesa dos pobres e dos infelizes, dos que morriam de fome e sede. Com veemência, João-Boca-de-Ouro ergueu sua voz contra os flagelos sociais, o luxo e a cobiça. Lembrou a dignidade do homem, mesmo pobre, e os limites da propriedade. Dizia: "Libertai o Cristo da fome, da necessidade, das prisões, da nudez."
A fama de João ultrapassava as fronteiras de Antioquia e chegava à nova capital do império. Em 397, o bispo da capital, Nectário, que sucedera a Gregório Nazianzeno, acabava de morrer. Intimado a comparecer à Capital do Império, foi eleito o Bispo de Constantinopla, a Sé do Oriente. João começou uma grande reforma, desembaraçando a casa episcopal do luxo, fazia suas refeições sozinho e acabou com as recepções suntuosas. Reformou as ordens de vida dos clérigos e dos monges, organizou a Reforma Litúrgica com a preocupação de levar Deus aos homens pela Divina Liturgia.
O texto da Divina Liturgia (Santa Missa) que toda a Igreja Ortodoxa celebra em todo o mundo, é conhecida como sendo de São João Crisóstomo.
Empreendeu a evangelização das zonas agrícolas e esforçou-se para trazer à ortodoxia aos pagãos, que eram numerosos na região. Combateu as seitas heréticas com intransigência e rudeza.
Em 402, São João Crisóstomo foi deposto e exilado acusado de não coadunar os interesses da Igreja com as do Império. O bispo foi detido em sua catedral, durante a celebração pascal. Depois de uma palavra de despedida, João deixou a sua igreja que jamais haveria de rever. O exílio foi penoso. João foi enviado para uma aldeia, Cucusa, na fronteira com a Armênia.
A saúde do bispo achava-se enfraquecida. O clima era duro e desfavorável para o seu estado. A maior parte de suas cartas data dessa época. Este homem atingido em cheio pela provação procurou mais consolar do que ser consolado.
No sofrimento, pensava nos outros. Finalmente morreu, no dia 14 de setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. Suas últimas palavras foram: "Glória a Deus por tudo."
Os contemporâneos descrevem-nos João Crisóstomo como um homem de estatura baixa, de rosto magro, de testa enrugada, de cabeça calva. Tinha voz fraca. As austeridades comprometeram definitivamente sua saúde. Não falava para ser escutado, falava para instruir, exortar, reformar, preocupado com o combate aos costumes pagãos e com a instauração da moral do Evangelho. Era um reformador, um missionário. Se não era um teólogo original, era um pastor incomparável. Sua pregação desempenhou na liturgia bizantina o mesmo papel que a de Agostinho no Ocidente. Ele foi lido, copiado, traduzido, imitado. De todos os Padres da Igreja, São João Crisóstomo é aquele cuja pregação menos envelheceu. Sua pregação moral e social parece escrita hoje.
A honra da Igreja consiste em contar com homens, como João Crisóstomo, que não pactuaram com o poder, com o dinheiro, e que souberam tomar o partido dos pobres. Toda a fé deste homem exprime-se em sua palavra. E esta palavra vive sempre.

FONTE:
Hamman. Os Padres da Igreja. Ed Paulinas, 1985
Spaneut, Michel. Os Padres da Igreja. Ed Loyola. 1999


«Antologia»

Conteúdo:
  1. Seguimento de Cristo
  2. Confiança em Deus
  3. Alegria
  4. Fé e Oração
  5. Caridade
  6. Penitência e Conversão
  7. Luta Interior
  8. Amor à Pobreza
  9. Humildade
  10. Eucaristia
  11. Castidade, Matrimônio e Família
  12. Ação Apostólica
SEGUIMENTO DE CRISTO
  1. Cristo deu-te o poder de ser como Ele segundo as tuas forças. Não te assustes ao ouvires isto. O que deve espantar-te é não seres como Ele. (Homilias sobre São Mateus, 78, 4)
  2. Daniel era jovem; José, escravo; Áquila exercia uma profissão manual; a vendedora de púrpura encarregava-se de uma loja; outro era guarda de uma prisão; outro centurião, como Cornélio; outro estava doente, como Timóteo; outro era um escravo fugitivo, como Onésimo. E, no entanto, nada disso foi obstáculo para nenhum deles, e todos brilharam pela sua virtude: homens e mulheres, jovens e velhos, escravos e livres; soldados e civis. (Homilias sobre São Marcos, 43, 5)
  3. Não é absurdo pores tanto cuidado nas coisas do corpo, a ponto de já desde muitos dias antes da festa preparares uma roupa belíssima, e te adornares e embelezares de todas as maneiras possíveis, e, no entanto, não tomares nenhum cuidado com a tua alma, abandonada, suja, esquálida, consumida de fome...? (Homilias sobre as estátuas, 6)
  4. Quando o espiritual nos chama, não há ocupação alguma necessária. (Homilias sobre São Mateus, 69, 1)
  5. Não te peço pagamento algum pelo que te dou - diz-nos [o Senhor] -, antes Eu mesmo quero ser teu devedor, com a única condição de que queiras beneficiar-te de tudo o que é meu. A que se pode comparar esta honra? Eu sou pai, irmão, esposo, casa, alimento, vestido, raiz, fundamento; Eu sou tudo quanto tu quiseres; por isso, não te vejas necessitado de coisa alguma. Até te servirei, pois vim para servir, e não para ser servido (cfr. Mc 10,45). Eu sou amigo, membro, cabeça, irmão, irmã e mãe; sou tudo isso, e apenas quero contigo intimidade. Eu, pobre por ti, mendigo por ti, crucificado por ti, sepultado por ti; no céu, por ti, diante de Deus Pai; e na terra sou seu legado diante de ti. És tudo para Mim, irmão e co-herdeiro, amigo e membro. Que mais queres? (Homilias sobre São Mateus, 76)
  6. O amor [de Deus] é grande. Se desejas emprestar-lhe, Ele está disposto a receber. Se queres semear, Ele te vende a semente; se queres construir, Ele te diz: edifica nos meus terrenos. Por que corres atrás das coisas dos homens, que são pobres mendigos e nada podem? Corre atrás de Deus, que, em troca de coisas pequenas, te dá outras grandes. (Homilias sobre São Mateus, 76, 4)
  7. Não vos recomendo nada pesado. Não vos digo: "Não caseis". Não vos digo: "Abandonai a cidade e afastai-vos dos negócios civis". Não. Permanecei onde estais, mas praticai a virtude. Na verdade, eu preferiria que aqueles que vivem nas cidades brilhassem pela sua virtude a que o fizessem os que foram viver nos montes. Por quê? Porque daí resultaria um bem imenso, pois ninguém acende uma lâmpada e a põe debaixo do alqueire (Mt 5, 15). É por isso que eu quereria que todas as luzes estivessem sobre os candeeiros, para que a claridade fosse maior. Acendamos, pois, o fogo, façamos com que aqueles que se encontram sentados nas trevas se vejam livres do erro. E não me venhas dizer: "Tenho filhos, tenho mulher, tenho que cuidar da casa e não posso cumprir o que me dizes". Se não tivesses nenhuma dessas coisas e fosses tíbio, tudo estaria perdido; mas, mesmo que todas essas coisas te rodeiem, se fores fervoroso, praticarás a virtude. Só uma coisa é necessária: uma disposição generosa. Se a tiveres, nem a idade, nem a pobreza, nem a riqueza, nem os negócios, nem qualquer outra coisa pode constituir um obstáculo para a virtude. (Homilias sobre São Mateus, 43, 5)
CONFIANÇA EM DEUS
  1. Não somos nós, mas a Providência divina que faz tudo, mesmo nas coisas que aparentemente somos nós que fazemos. (Homilias sobre São Mateus, 21, 4)
  2. Não é possível falar de não receber em se tratando de Deus, porque, tanto quanto a bondade supera a maldade, assim o seu amor supera o de todos os pais. (Homilias sobre São Mateus, 23, 5)
  3. Além do que já nos disse, o Senhor dá-nos ainda mais um motivo para que tenhamos confiança: Procurai antes de tudo o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo (Mt 6, 33). Depois de ter livrado a alma de toda a inquietação, Cristo recorda-lhe o Céu. Com efeito, Ele veio destruir o que era antigo e chamar-nos a uma pátria melhor. Por isso não poupa esforços para nos livrar do cuidado do supérfluo e para nos desprender do desordenado amor à terra [...]. Não nascemos para comer, beber e vestir-nos luxuosamente, mas para agradar a Deus e alcançar os bens eternos. E já que essas coisas devem ser secundárias no nosso empenho, sê-lo-ão também na nossa oração. (Homilias sobre São Mateus, 22, 3)
  4. Mesmo ofendido, Deus continua a ser nosso Pai; mesmo irritado, continua a amar-nos como a filhos. Só uma coisa procura: não ter de castigar-nos pelas nossas ofensas, ver que nos convertemos e lhe pedimos perdão. (Homilias sobre São Mateus, 22, 5)
ALEGRIA
  1. Podeis acaso não estar em festa contínua durante os dias da vossa vida terrena? Longe de nós qualquer abatimento pela pobreza, doença ou perseguição que nos aflige. A vida presente é um tempo de festa. (Homilias sobre São Mateus, 19, 3)
  2. Que pode perturbar o santo? A morte? Não, porque a deseja como prêmio. As injúrias? Não, porque Cristo ensinou a sofrê-las: Bem-aventurados sereis quando vos injuriarem e vos perseguirem (Mt 5, 11). A doença? Também não, porque a Escritura aconselha: Aceita tudo o que Deus te mandar, e permanece em paz na tua dor, e no tempo da humilhação tem paciência; porque o ouro e a prata se provam no fogo, e os homens amados de Deus, no cadinho da tribulação (Ecl 2, 5). Que resta então, que seja capaz de perturbar o santo? Nada. Na terra, até a alegria costuma acabar em tristeza; mas, para quem vive de acordo com Cristo, as próprias penas se transformam em alegria. (Homilias sobre as estátuas, 18)
FÉ E ORAÇÃO
  1. Abrir os olhos é coisa de Deus, escutar atentamente é coisa nossa; a fé é simultaneamente obra divina e obra humana. (Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, 35)
  2. Deus chamou [os Magos] servindo-se daquilo que lhes era mais familiar e mostrou-lhes uma grande e maravilhosa estrela para que lhes chamasse a atenção pela sua própria grandeza e formosura [...]. Enquanto os Magos estavam na Pérsia, não viam senão uma estrela; mas, depois que deixaram a sua pátria, viram o próprio Sol da justiça. (Homilias sobre São Mateus, 6, 3-6)
  3. Quando digo a alguém: "Roga a Deus, pede-lhe, suplica-lhe", responde-me: "Já pedi uma vez, duas, três, dez, vinte vezes, e nada recebi". Não cesses, irmão, enquanto não tiveres recebido; a petição termina quando se recebe o que se pediu. Cessa quando tiveres alcançado; melhor ainda, nem então cesses. Persevera ainda. Enquanto não receberes, pede para conseguir; e quando tiveres recebido, dá graças. (Homilia sobre a rejeição da cananéia, 10)
  4. A necessidade obriga-nos a rogar por nós mesmos, e a caridade fraterna a pedir pelos outros; mas é mais aceitável a Deus a oração recomendada pela caridade do que aquela que é motivada pela necessidade. (em Catena aurea, vol. I, pág. 354) (Homilias sobre a primeira Epístola aos Coríntios, 5, 7-8)
  5. Na verdade, entras no coro dos anjos, és companheiro dos arcanjos e cantas junto dos serafins [...]. Não fazes oração aos homens, mas a Deus. (Homilias sobre São Mateus, 19, 3)
CARIDADE
  1. Se a simples circunstância de serem de uma mesma cidade é suficiente para que muitos se façam amigos, como não terá de ser o amor entre nós, que temos a mesma casa, a mesma mesa, o mesmo caminho, a mesma porta, idêntica vida, idêntica cabeça, o mesmo pastor e rei e mestre e juiz e criador e Pai? (Homilias sobre São Mateus, 32, 7)
  2. Procuremos aquelas virtudes que, além de nos darem a salvação, aproveitam principalmente ao próximo. [...] Nas coisas terrenas, ninguém vive para si mesmo. O artesão, o soldado, o lavrador, o comerciante, todos sem exceção contribuem para o bem comum e para o proveito do próximo. Por maioria de razão nas coisas espirituais, porque isto, acima de tudo, é que é viver. Aquele que vive só para si, e despreza os outros, é um ser inútil, não é um homem, não pertence à nossa linhagem.
  3. Também nós seremos chamados a prestar contas dos mandamentos que nos foram dados, e, por mais que façamos, não teremos com que pagar. Por isso Deus nos deu um caminho chão e fácil para pagar, um meio simples de saldar toda a nossa divida: não guardar nunca rancor ao nosso próximo. (Homilias sobre São Mateus, 61, 3)
  4. Nada nos assemelha tanto a Deus como o estarmos sempre dispostos a perdoar. (Homilias sobre São Mateus, 19, 3)
  5. Deus a ninguém aborrece e rejeita tanto como ao homem que se lembra da injúria, ao coração endurecido, ao ânimo que conserva o ressentimento. (Homilia sobre a traição de Judas, 2, 6)
  6. Quem é humilde é útil a si e aos outros. (Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, 6)
PENITÊNCIA E CONVERSÃO
  1. O mais grave é que, encontrando-nos neste estado [de pecado], não pensamos na deformidade da nossa alma nem nos damos conta do seu aspecto horrível. Quando te sentas numa barbearia para cortar o cabelo, imediatamente tomas na mão um espelho e olhas e voltas a olhar como vai ficando o corte e perguntas aos presentes e ao próprio barbeiro se ficou bem o topete da frente. E, mesmo que já sejas um velho, muitas vezes não te envergonhas da mania de imitar a gente jovem. Mas de que a nossa alma esteja deformada, e até de que tenha assumido o aspecto de uma fera [...], nem sequer nos damos conta. No entanto, também aqui dispomos de um espelho espiritual, muito melhor e mais proveitoso que o outro, material. Este espelho não somente põe diante de nós a nossa deformidade, mas até, se o quisermos, pode transformá-la em beleza incomparável. Este espelho é a memória dos homens santos, as histórias da sua vida bem-aventurada, a lição das Escrituras, as leis que por Deus nos foram dadas. Se alguma vez decidires olhar para as imagens desses santos, não somente verás a deformidade da tua própria alma, mas, assim que a vires, não precisarás de mais nada para libertar-te dessa fealdade. Tão proveitoso é para nós esse espelho e com tal facilidade realiza a transformação. (Homilias sobre São Mateus, 4, 9)
  2. Não são somente as feridas do corpo que produzem a morte se não forem tratadas, mas as da alma também. No entanto, chegamos a tal ponto de insensatez que cuidamos, sim, com todo o empenho, das feridas do corpo, mas não fazemos o menor caso das da alma.
    No corpo, é natural que nos sobrevenham muitas doenças incuráveis; no entanto, nem por isso desesperamos e, apesar de os médicos nos dizerem e repetirem que para tal doença não há remédio nem medicamento que a faça desaparecer, insistimos uma e outra vez e lhes pedimos que pelo menos pensem em alguma coisa que a alivie. No caso da alma, porém, para a qual não existe doença incurável, pois a alma não está submetida à necessidade ou fatalidade da natureza; no caso da alma, digo, descuidamos as doenças e desesperamos da sua cura, como se se tratasse de achaques alheios. Onde a natureza das doenças poderia levar-nos a desesperar, pomos todo o nosso cuidado, como se tivéssemos mil esperanças de saúde; onde não há motivo para o desalento, desistimos e nos descuidamos, como se estivéssemos desesperados. A tal ponto atribuímos mais importância ao corpo que à alma!
  3. Na verdade, por este caminho, nem o corpo poderemos salvar. Aquele que descuida o principal e põe todo o seu empenho no secundário, destrói e perde um e outro. Aquele que guarda a devida ordem, ao salvar e cuidar do principal, mesmo que descuide o secundário, ao salvar o primeiro salva também o segundo. É o que Cristo nos quis dar a entender quando disse: Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode lançar a alma e o corpo,no inferno (Mt 10,28). (Exortação 1 a Teodoro, 15)
  4. Mais do que o próprio pecado, o que irrita e ofende a Deus é que os pecadores não sintam dor alguma dos seus pecados. (Homilias sobre São Mateus, 14, 4)
  5. Imaginemos alguém repleto de toda a maldade, que tenha cometido todos os crimes que excluem do reino dos céus. Não o imaginemos entre aqueles que permanecem entre os infiéis a vida inteira, mas entre os fiéis, entre aqueles que primeiro agradaram a Deus, mas que depois se fizeram fornicadores, adúlteros, moles, ladrões, bêbados, invertidos, maldizentes ou blasfemos, ou cometeram outros pecados semelhantes a estes. Pois bem, nem mesmo a um pecador destes consentiria eu que desesperasse, mesmo que tivesse chegado à extrema velhice com toda essa carga de pecados. Se a ira de Deus fosse uma paixão, o pecador teria razão para desesperar de poder apagar um incêndio alimentado por ele próprio com pecados tão grandes. Mas não! A divindade é alheia à paixão e, quando castiga e se vinga, não o faz por ira, mas por sua imensa solicitude e amor. Portanto, é preciso ter bom ânimo e confiar no poder da penitência.
  6. Não basta retirar a flecha do corpo; também é preciso curar a chaga produzida pela flecha. Coisa semelhante acontece na alma: depois de ter recebido o perdão dos pecados, tem de curar por meio da penitência a chaga que ficou. (Homilias sobre São Mateus, 3, 5)
LUTA INTERIOR
  1. Mal somos atingidos por uma doença corporal, não deixamos de tentar nada, até nos vermos livres da moléstia; estando, no entanto, a nossa alma doente, às vezes, tudo são vacilações e atrasos [...]: fazemos do necessário acessório, e do acessório necessário. Deixamos aberta a fonte dos males e desejamos secar os arroios. (Homilias sobre São Mateus, 14, 3)
  2. O que quero é pedir-vos e suplicar-vos novamente que imiteis pelo menos as crianças pequenas na escola. Estas, antes de mais nada, aprendem a forma das letras; depois começam a distinguir as cursivas, e assim, passo a passo, chegam a aprender a ler. Façamos nós o mesmo: dividindo em partes a virtude, aprendamos primeiro a não imprecar, não perjurar, não maldizer; a seguir, passando à letra seguinte, a não invejar ninguém, a não amar os corpos, a não nos entregarmos à gula e a embriaguez, a não ser cruéis, a não ser indolentes. Depois, passando às letras espirituais, estudemos a continência, a mortificação do ventre, a castidade, a justiça, o desprezo da glória; sejamos modestos, contritos de coração, e, ligando essas virtudes umas às outras, escrevamo-las na nossa alma. Podemos exercitar todas essas coisas na nossa própria casa: com os amigos, com a mulher e com os filhos. Para já, comecemos com o mais simples, como, por exemplo, não deprecar. Estudemos constantemente esta letra na nossa própria casa. Sem dúvida, não nos faltarão em casa pessoas que venham perturbar este estudo: é o escravo que vos irrita; a mulher que, com o seu mau humor, vos tira do sério; e o menino que, com as suas travessuras e rebeldias, vos faz prorromper em ameaças e imprecações. Pois bem, se em casa, aguilhoados constantemente por todos estes, conseguirdes não ser arrastados a dizer imprecações, facilmente saireis indenes também em praça pública. Mais ainda: se em casa não insultares a tua mulher nem o teu escravo nem outro qualquer, conseguirás não insultar absolutamente ninguém. É verdade que a tua mulher muitas vezes se põe a louvar fulano e a chorar como uma desgraçada, e te dá assim razões suficientes para prorromperes em maldições contra o outro. Mas tu não te irrites nem maldigas o louvado, antes suporta tudo generosamente. Se ouvires os teus escravos louvarem igualmente outros senhores, também não te perturbes, mas permanece sempre sereno. Seja a tua casa um lugar de combate e adestramento na virtude. Bem exercitado em casa, sustentarás com muita destreza os combates em praça pública. (Homilias sobre São Mateus, 11, 8)
  3. Não há nada, por fácil que seja, que a nossa tibieza não apresente como difícil e pesado; como nada há tampouco tão difícil e penoso que o nosso fervor e determinação não o torne fácil e leve. (Tratado sobre a compunção, 1, 5)
  4. [As tentações] servem em primeiro lugar para que percebas que agora és mais forte. Depois, para que tenhas moderação e humildade, e não te empertigues pela grandeza dos dons recebidos, porque as tentações podem muito bem reprimir o teu orgulho. Além disso, a malícia do demônio, que talvez duvide de que realmente o abandonaste, pode pela prova das tentações ter plena certeza de que te afastaste dele definitivamente. Quarto motivo: as tentações tornam-te mais forte do que o ferro mais bem temperado. Quinto: dão-te a melhor prova de como são preciosos os tesouros que te foram confiados, porque, se o diabo não tivesse visto que agora estás constituído na mais alta honra, não te atacaria. (Homilias sobre São Mateus, 13, I)
  5. O grave não é que aquele que luta, caia, mas que permaneça caído. O grave não é ser ferido na guerra, mas desesperar-se depois de receber o golpe e não cuidar da ferida.
    Um mercador não deixa de navegar por ter sofrido naufrágio certa vez e perdido a carga. Retoma ao mar e desafia as ondas e atravessa os oceanos, e acaba por recuperar a sua riqueza. E assim vemos também muitos atletas que, depois de grandes quedas, conseguiram ser coroados; e muitas vezes aconteceu que um soldado, que primeiro havia dado as costas ao inimigo, depois voltou atrás e lutou como um valente e venceu o inimigo. Muitos, por fim, que negaram a Cristo forçados pela violência dos tormentos tornaram depois ao combate e saíram deste mundo cingindo a coroa do martírio. Se cada um destes se tivesse deixado tomar pelo desalento ao primeiro golpe, não teria alcançado os bens que alcançou mais tarde. Assim também tu, querido Teodoro, não deves precipitar-te a ti mesmo no abismo só porque te afastaste um pouco do teu estado. Não. Resiste valorosamente e retoma depois ao lugar de onde saíste, e não tenhas por desonra teres um dia recebido esse golpe. Se visses um soldado que retoma ferido da guerra não o considerarias desonrado; desonra é lançar fora as armas e deixar o campo de batalha. Mas enquanto a pessoa se mantiver firme no seu posto e se empenhar em combater, mesmo que seja ferida, mesmo que tenha de retroceder alguns passos, ninguém será tão insensato nem tão inexperiente nas coisas da guerra que se atreva a lançar-lho em rosto. Não ser ferido é próprio somente daqueles que não lutam; mas aqueles que se lançam com grande ímpeto contra o inimigo, é natural que vez por outra sejam atingidos por um golpe e caiam. Isto é o que te aconteceu agora: quiseste matar a serpente de um só golpe e foste mordido por ela. Mas, anima-te; com um pouco de vigilância, não ficará o menor rasto dessa ferida e até, com a graça de Deus, conseguirás esmagar a cabeça da serpente. (Exortação 2 a Teodoro, 1)
  6. Quando falta a nossa cooperação, cessa também a ajuda divina. (Homilias sobre São Mateus, 50, 2)
  7. Um chefe no campo de batalha estima mais o soldado que, depois de ter fugido, volta e ataca com ardor o inimigo, que o que nunca voltou as costas, mas também nunca realizou uma ação valorosa. (Comentário à primeira Carta aos Coríntios, 3)
  8. Para que servem umas plantas que depressa florescem e pouco depois murcham? Não, o Senhor exige dos seus uma resistência constante. (Homilias sobre São Mateus, 33, 5)
  9. As árvores que crescem em lugares sombreados e livres de ventos, enquanto externamente se desenvolvem com aspecto viçoso, tornam-se moles e quebradiças, e qualquer coisa as fere facilmente; ao contrário, as que vivem nos cumes dos montes mais altos, agitadas por muitos e fortes ventos, sempre expostas à intempérie e às inclemências, batidas por fortes tempestades e cobertas de neves constantes, tornam-se mais robustas que o ferro. (Homilia sobre a glória na tribulação)
AMOR À POBREZA
  1. Como não ter por suma loucura acumular tudo lá onde o que se deposita se perde e se corrompe, e não deixar nem a mais ínfima parte ali onde há de permanecer intacto e até crescer? E onde, além disso, havemos de viver por toda a eternidade! É por isso que os gentios não crêem no que lhes dizemos, pois querem que lhes demonstremos a nossa doutrina, não pelas nossas palavras, mas pelas nossas obras. Quando nos vêem construir magníficas casas e plantar jardins e construir termas e comprar campos, não conseguem persuadir-se de que estamos a preparar a nossa viagem para outra cidade. Se assim fosse, argumentam, [os cristãos] venderiam tudo o que possuem aqui e o depositariam ali, e assim pensam em função do que costuma acontecer na vida. Com efeito, podemos observar que os grandes ricaços adquirem casas, campos e tudo o mais principalmente nas cidades onde pretendem passar a vida. Nós, porém, fazemos o contrário: a terra que havemos de abandonar dentro de pouco, matamo-nos por possuí-Ia, e por umas braças a mais, ou por umas construções, não somente entregamos o nosso dinheiro, mas até o nosso sangue; mas para comprar o céu, custa-nos imenso desprender-nos até do supérfluo, e isso quando poderíamos comprá-lo a preço muito baixo e, uma vez comprado, possuí-lo eternamente. Portanto, se ali aparecermos nus, sofreremos o suplício definitivo, e o sofreremos não apenas por causa da nossa pobreza, mas por termos empobrecido os outros. Porque, quando os pagãos vêem que aqueles que foram iniciados em tão altos mistérios põem todo o seu afã no que é terreno, também eles o abraçam com redobrado ardor, com o que não fazem senão acumular brasas sobre a nossa cabeça. Se nós, que deveríamos ensiná-los a desprezar tudo o que é visível, somos os primeiros a excitar-lhes a cobiça, como poderemos salvar-nos, réus que somos da perdição dos outros? (Homilias sobre São Mateus, 12, 5)
  2. "Como é possível isto [fugir da tirania do dinheiro]?", dir-me-eis. Metendo no vosso coração outro amor diferente: o amor dos céus. Aquele que aspira à realeza, despreza a avareza. (Homilias sobre São Mateus, 12, 6)
  3. Por que queres que aconteça contigo o mesmo que aconteceu com Nabucodonosor? Este levantou uma estátua a si mesmo, e da madeira, da forma insensível, esperava que lhe adviria um acréscimo de fama. O vivo queria receber novo brilho daquilo que não tem vida: compreendes o excesso da sua loucura? Porque, crendo que iria honrar-se a si mesmo, cobriu-se de ignomínia. Efetivamente, como não considerar ridículo um homem que tem mais confiança num objeto inanimado que em si mesmo e na alma viva que há nele, e por isso exalta a tal grau de preeminência a madeira e procura ser glorificado não pelos seus costumes, mas por algumas peças reunidas? É exatamente como aqueles que pretendem brilhar pelo pavimento da sua casa, ou por uma bela escadaria, ao invés de brilharem pela sua condição de homens. Nabucodonosor tem hoje muitos imitadores entre nós. Ele quis ser admirado pela sua famosa estátua; outros querem agora ser admirados pelas suas vestes, pela sua casa, pelas suas mulas, pelos seus carros, pelas colunas que sustentam os seus palácios. E, como perderam o seu ser de homens, andam de cá para lá, buscando por toda a parte uma glória que é o cúmulo do ridículo. (Homilias sobre São Mateus, 4, 10)
HUMILDADE
  1. A paz foi para o Céu. E, se quisermos, podemos fazê-la voltar. Basta que expulsemos de nós a soberba e a arrogância [...] e sejamos humildes. (Homilias sobre São Mateus, 10, 6)
  2. [A vanglória:] Foi ela que os afastou de Deus, foi ela que os fez procurar outra arena para as suas lutas e os perdeu. Porque, como se procura agradar aos espectadores que cada qual tem, conforme forem os espectadores, tais serão os combates que se realizam. (HomiZias sobre São Mateus, 72, 2)
  3. Com essa disposição da tua alma, com o teu amor à vanglória, mesmo que vivas num ermo, ermo estarás tu de toda a virtude. (Homilias sobre São Mateus, 20, 2)
  4. Que te parece, dentre as coisas do mundo, mais desejável e digna de inveja? O poder, dir-me-ás sem dúvida, a riqueza e a glória entre os homens. Mas, que pode ser mais miserável do que tudo isso, se o compararmos com a liberdade do cristão? Aquele que manda está sujeito ao furor dos povos, aos impulsos irracionais da multidão, ao medo dos que por sua vez mandam nele, às preocupações dos seus subordinados. E aquele que ontem mandava, hoje é um homem privado. A vida presente em nada se diferencia de um teatro. Ali um é rei, outro general, outro ainda faz o papel de soldado raso. Chegada a tarde, nem o rei é rei, nem aquele que manda manda, nem égeneral o general. Assim, no dia do juízo, cada um receberá o que tiver merecido, não pelo papel que tiver representado, mas pelas obras que tiver realizado. Será então digna de estima a glória que cai como a flor do feno? A riqueza, cujos possuidores o Senhor maldiz? Ai de vós, ricos!, diz (Lc 6, 24). E o salmista: Ai dos que confiam no seu poder e se orgulham da multidão das suas riquezas! (SI 48, 7). O cristão, em contrapartida, nunca passa de homem que manda a homem privado, de rico a pobre, de glorioso a obscuro. Continua rico quando mendiga e é exaltado quando se esforça por humilhar-se. Não manda sobre homens, mas sobre os príncipes submetidos ao poder do príncipe das trevas deste mundo, e esse império ninguém lho pode arrebatar. (Exortação 2 a Teodoro, 3)
  5. O que é que receias?, parece dizer-te o Senhor. Ficar rebaixado pela humildade? Olha para Mim. Considera o exemplo que Eu vos dei, e verás então, com toda a evidência, a grandeza da humildade. (Homilias sobre São Mateus, 38, 3)
  6. Por muito que te humilhes, nunca poderás chegar tão baixo como chegou o teu Senhor. [...] Não temas, portanto, como se, ao humilhar-te, te fosse tirada a honra, pois com isso não fazes senão aumentá-la [...]. Por que ambicionas os primeiros lugares? Para ficar acima dos outros? Escolhe o último lugar, e então obterás o primeiro. Se queres ser grande, não procures ser grande, e assim serás grande. Porque o contrário disso é ser pequeno. (Homilias sobre São Mateus, 65, 4)
  7. [Que não nos aconteça como ao navio que] realizou muitas viagens e escapou de muitas tempestades, mas no porto de chegada choca-se contra uma rocha e caem pela borda todos os tesouros que carregava; assim, todo aquele que, depois de muitos trabalhos, não repele o desejo de louvores, naufraga no próprio porto. (Homilia sobre a perfeição evangélica)
EUCARISTIA
  1. O que os anjos contemplam tremendo, o que não se atrevem a olhar de frente, sem temor, pelo resplendor que irradia - é isso o que nos alimenta, é a isso que nos unimos estreitamente, passando a ser com Cristo um só corpo e uma só carne. (Homilias sobre São Mateus, 82)
  2. A melhor maneira de guardar o beneficio é lembrar-se dele, tê-lo na memória e dar graças sempre. É por isso que os extraordinários mistérios, cheios da graça da salvação, que celebramos na Missa, recebem o nome de Eucaristia, quer dizer, de ação de graças, pois são o memorial de muitos benefícios de Deus, põem-nos diante da maior manifestação da sua Providência e inclinam-nos a dar graças a Deus a todo o momento. (Homilias sobre São Mateus, 25, 3)
  3. Ao vê-lo exposto diante de ti, deverás dizer a ti próprio: por este Corpo já não sou terra nem cinza, já não sou cativo, mas livre; por ele espero o céu e todos os seus bens: a vida eterna, a sorte dos anjos, o trato familiar com Cristo. Este Corpo, atravessado com pregos, ferido com açoites, não o levou a morte: até o sol, ao ver este Corpo crucificado, desviou os seus raios; por causa dele rasgou-se então o véu, quebraram-se as pedras e toda a terra tremeu. É este aquele Corpo que foi ensangüentado, que foi ferido pela lança e que fez brotar para o mundo inteiro as fontes da salvação: uma de sangue e outra de água. Queres mais argumentos para conhecer a força deste Corpo? (Homilia sobre a primeira Epístola aos Coríntios, 24, 4)
  4. Que desculpa tens para não dominar a tua natureza? Que pretexto aceitável podes alegar, quando de um leão fazes um homem, e tu, que és homem, consentes em converter-te em leão? [...] Considera, por favor, que também a ira é uma fera. Toda a habilidade que os outros demonstram em domar os leões, demonstra-a tu, domando-te a ti mesmo e tornando mansa e pacífica essa fera. [...] Nem um leão nem uma víbora são capazes de despedaçar as tuas entranhas como a ira, que as despedaça a cada momento com os seus dentes de ferro. Porque a ira não causa dano somente ao corpo, mas destrói também a saúde da alma, devorando, destroçando, dissipando toda a sua força e tornando-a incapaz para tudo. [...] Mas como nos livraremos desta calamidade? Bebendo uma bebida capaz de matar os vermes e as serpentes que trazemos dentro. E que bebida é essa, que tem uma virtude tão maravilhosa? Essa bebida é o precioso sangue de Cristo, desde que seja bebido com confiança. Só ela é capaz de curar todas as nossas enfermidades. (Homilias sobre São Mateus, 4, 9).
CASTIDADE, MATRIMÔNIO E FAMÍLIA
  1. [O matrimônio é] de um com uma e para sempre. (Homilias sobre São Mateus, 62, 1)
  2. Se aquele que olhar uma mulher para desejá-la já cometeu com ela adultério (cfr. Mt 5, 28), quem a todo o custo se empenha em vê-Ia nua não ficará mil vezes cativo? [...] Quando se trata de preeminências, aspirais ao primeiro lugar em toda a terra, por ter sido a vossa cidade [Antioquia] a primeira que se coroou com o nome de "cristão"; mas neste combate da pureza, não vos envergonhais de ocupar um lugar inferior ao das mais rústicas aldeias! "Muito bem - respondeis-me -, que queres então que façamos? Que subamos esses montes e nos façamos monges?" Isto é o que me faz gemer, que penseis que a modéstia e a castidade convêm somente aos monges. Não, Cristo promulgou leis comuns a todos. Com efeito, quando disse: Aquele que olhar uma mulher para desejá-la, não falava com o monge, mas com o homem casado, pois desses homens estava cheio o monte sobre o qual o Senhor falava. [...] Não te proíbo de te casares nem me oponho a que te divirtas. Só quero que o faças com temperança, não com impudor, não com culpas e pecados sem conta. Não imponho como lei que vades aos montes e aos desertos, mas que sejais bons, modestos e castos, mesmo vivendo no meio das cidades. Para dizer a verdade, temos em comum com os monges todas as leis divinas, com exceção do matrimônio [...]. Permanece na tua casa com a tua mulher e os teus filhos, mas não ultrajes essa mesma mulher, não desonres os teus próprios filhos, não metas na tua casa a peste dos teatros. Não ouves Paulo que diz: O varão não tem poder sobre o seu corpo, mas a mulher? (1 Cor 7, 4). [O Apóstolo] impõe leis comuns ao homem e à mulher. Tu, no entanto, se a tua mulher freqüenta a igreja, logo a cobres de implacáveis recriminações; mas passares tu o dia inteiro no teatro, não pensas que mereça recriminação alguma. És tão exigente quanto à castidade da tua mulher que chegas ao excesso e à falta de medida, a ponto de não lhe permitires as saídas necessárias; quanto a ti, porém, pensas que tudo te está permitido. Mas não será Paulo quem to permita, pois dá à mulher o mesmo poder que a ti: Pague o homem - afirma - a honra que deve à mulher. Mas que honra é essa, quando a ultrajas da maneira mais cortante e entregas a uma prostituta o corpo que lhe pertence - porque o teu corpo pertence a ela -, quando crias em tua casa alvoroços e guerras, quando fazes em praça pública o que não podes contar na intimidade sem envergonhares a tua esposa que te ouve, sem envergonhares a tua filha que está presente, sem te envergonhares antes a ti mesmo?
  3. Mostra à tua mulher que aprecias muito viver com ela e que por ela preferes ficar em casa a andar pela rua. Prefere-a a todos os teus amigos e mesmo aos filhos que ela te deu; ama esses filhos por amor dela [...] Fazei juntos as vossas orações [...] Aprendei o temor Deus. Todas as outras coisas fluirão daí como de uma fonte e a vossa casa se encherá de inumeráveis bens. (Homilias sobre a carta aos Efésios, 20)
  4. Mas tu, deixando a fonte do sangue, o cálice estremecedor, vais à fonte do diabo, para ver como nada uma meretriz e como naufraga a tua própria alma. [...] Porque não imagines que, por não te haveres unido à meretriz, estás limpo de pecado. O desejo fez tudo. Se agora a paixão te domina, foste tu que acendeste mais o seu fogo; e se nenhuma impressão te produz o que viste, ainda é maior a tua culpa, porque foste pedra de escândalo para os outros e com semelhante espetáculo manchaste os teus olhos, e com os teus olhos a tua alma. Mas não nos contentemos apenas com repreender o mal; pensemos também no modo de corrigi-lo. Que modo será este? Eu quereria entregar-vos às vossas próprias mulheres para que elas vos instruam. [...] E se te envergonhas de ter uma mulher por mestra, [...] a Escritura te remete aos mais vis animais, para que aprendas com eles. [...] E o mesmo faremos nós agora. Por ora, vos entregaremos às vossas mulheres; mas, se desprezardes essas mestras, vos enviaremos à escola dos irracionais, e ali vos mostraremos quantas aves, quantos peixes, quantos quadrúpedes e serpentes são mais pudicos e castos que vós. Se te envergonhas e enrubesces com a comparação, sobe à tua própria nobreza, ao trono que por Deus te foi dado. (Homilias sobre São Mateus, 7, 6)
  5. Porque também se pode olhar de outra maneira para uma mulher, tal como olham os homens castos. É por isso que o Senhor não proibiu de forma absoluta olhar, mas olhar com concupiscência. Se o tivesse querido, tê-lo-ia dito de maneira absoluta: "Aquele que olhar uma mulher". Na realidade, não disse isso, mas sim: Aquele que olhar uma mulher para desejá-la [...] Com efeito, Deus não nos deu os olhos para que por eles penetre o adultério na nossa alma, mas para contemplarmos as suas criaturas e por elas admirarmos o seu Criador. Ora bem, tal como uma pessoa pode irar-se sem motivo, também pode olhar sem motivo, e é o que acontece quando olha para excitar a concupiscência. Se queres olhar para teu deleite, olha para a tua mulher e ama-a continuamente: não há lei que te proíba fazê-lo. Mas se andas à busca de belezas alheias, ofendes em primeiro lugar a tua própria mulher, pois  levaste os teus olhos a outra parte, e ofendes também aquela que olhaste, pois a tocaste ilegitimamente. Se não a tocaste com a mão, pelo menos fizeste-o com os olhos, e por isso o teu olhar é considerado adultério. (Homilias sobre São Mateus, 17, 3)
  6. Como posso, pois, persuadir-me de que seja possível salvarem-se os vossos filhos, quando vejo que os incitais a fazer tudo aquilo que Cristo declarou ser impedimento absoluto para a salvação? Quando vejo que menosprezais como coisa secundária a sua alma e colocais todo o vosso afã no que verdadeiramente é secundário, como se fosse o necessário e principal? Todo o vosso empenho é que o vosso filho possa ter escravos, montar a cavalo, vestir a melhor das vestes; mas não chegais a pensar um só momento em como se fará ele mesmo melhor. Levais ao extremo a vossa preocupação por madeiras e pedras, mas não considerais a alma merecedora da menor parte desse cuidado. Estais dispostos a suportar tudo para terdes em casa uma primorosa estátua de arte e um enfeite de ouro, mas não quereis nem mesmo pôr o pensamento em fazer de ouro a mais preciosa das estátuas, a alma dos vossos filhos. (Contra os adversários da vida monástica, 3)
AÇÃO APOSTÓLICA
  1. Nada te pode fazer tão imitador de Cristo como a preocupação pelos outros. Mesmo que jejues, mesmo que durmas no chão, mesmo que, por assim dizer, te mates, se não te preocupas com o próximo, pouca coisa fizeste, ainda distas muito da imagem do Senhor. (Comentário à primeira Epístola aos Coríntios)
  2. Cristo deixou-nos na terra para que sejamos faróis que iluminam, doutores que ensinam; para que cumpramos o nosso dever como o fermento [...]. Nem sequer seria necessário expor a doutrina se a nossa vida fosse tão radiante, nem seria necessário recorrer às palavras se as nossas obras dessem tal testemunho. Já não haveria nenhum pagão, se nos comportássemos como verdadeiros cristãos. (Homilias sobre a primeira Epístola a Timóteo, 10)
  3. Não há nada mais frio que um cristão despreocupado da salvação alheia. Não podes aduzir como pretexto a tua pobreza econômica. Acusar-te-á a velhinha que deu as suas moedas no Templo. O próprio Pedro disse: Não tenho ouro nem prata (At 3, 6). E Paulo era tão pobre que muitas vezes passava fome e não tinha o necessário para viver. Não podes pretextar a tua origem humilde: eles também eram pessoas humildes, de condição modesta. Nem a ignorância te servirá de desculpa: todos eles eram homens sem letras. Sejas escravo ou fugitivo, podes cumprir o que depende de ti; assim foi Onésimo, e vê qual foi a sua vocação [...]. Não invoques a doença como pretexto, pois Timóteo estava submetido a freqüentes indisposições. Não digas: não posso ajudá-los, porque, se és cristão de verdade, é impossível que não o possas fazer. Não há maneira de negar as propriedades das coisas naturais; o mesmo acontece com isto que agora afirmamos, pois está na natureza do cristão agir dessa forma [...]. É mais fácil o sol deixar de iluminar ou de aquecer do que um cristão deixar de dar luz; mais fácil do que isso seria que a luz fosse trevas. Não digas que é impossível; impossível é o contrário [...]. Se orientarmos bem a nossa conduta, o resto sairá como conseqüência natural. Não se pode ocultar a luz dos cristãos, não se pode ocultar uma lâmpada que brilha tanto [00']' Cada um pode ser útil ao seu próximo, se quiser fazer o que está ao seu alcance. (Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, 20)
  4. A levedura, por muito pequena que seja, transforma uma grande quantidade de farinha; assim também vós convertereis o mundo inteiro [...]. Não se pode objetar: que podemos nós contra a imensa multidão dos homens? É isto precisamente o que revela o esplendor do vosso poder. Não desfaleçais [...], porque o vosso fulgor não se extinguirá, antes pelo contrário, vencereis todas as dificuldades. (Homilias sobre São Mateus, 46, 2)
  5. A levedura faz fermentar a massa quando está perto da farinha ou, melhor, misturada com ela, pois a mulher não só pôs a levedura como, além disso, a escondeu entre a massa. Do mesmo modo tendes que fazer vós quando estiverdes misturados, identificados com as pessoas [...], como a levedura que está escondida mas não desaparece, antes pouco a pouco vai transformando a massa na sua própria qualidade. (Homilias sobre São Mateus, 46, 2)
  
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