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sábado, 12 de março de 2016
A VOCAÇÃO SACERDOTAL - M. E. DE LA CROIX
A VOCAÇÃO SACERDOTAL - M. E. DE LA CROIX - [1]
Agradecimentos ao blog Alexandria Católica pela disponibilização do livro.
PREFÁCIO
da edição brasileira
O aparecimento em nosso idioma do livro A VOCAÇÃO SACERDOTAL, de M. E. La Croix é uma benção que cai sobre o Brasil. Não creio, no entanto, que possa este livro, entre nós, ter outro destino que não o de uma prodigiosa facundidade. Simplesmente porque trata de um problema que no Brasil se reveste de gravíssimo sentido — o problema das vocações para o sacerdócio? Não apenas.
Mas também porque o faz em linguagem de tão extraordinária unção e tal surpreendente eficácia que nenhuma alma, diante dele, poderá deixar de sentir-se tocada do frêmito de apostolado heroico que nele pulsa.
Encontrou La Croix expressões definitivas — cheias, no entanto, de maravilhosa simplicidade — para definir o sentido profundo e a dignidade suprema do sacerdócio em face da realidade divina. Assim como para chamar-nos ao dever sagrado de cooperação na difícil empreita de adivinhar, descobrir e fornecer mais numerosos trabalhadores para a vinha do
Senhor.
Independentemente desta finalidade, digamos, prática, fica ainda sendo o livro de M. E. La Croix, pela aura da contemplação comovida que o envolve todo, um manual de vida interior de atuação não muito menos poderosa do que, por exemplo, A ORAÇÃO DE TODAS ÁS HORAS, do Padre Pterre Charles, que tanto amamos no Brasil, de suas páginas ninguém sairá sem ter feito, com a graça de Deus, um passo à frente na compreensão do verdadeiro destino do espírito.
TASSO DA SILVEIRA.
A VOCAÇÃO SACERDOTAL - M. E. DE LA CROIX - [2]
Introdução do autor
Estas páginas foram escritas a convite pessoal de Sua Santidade Pio X f, que se dignou precisar-nos o seu pensamento a respeito de certos pontos, e a quem fizemos presente o manuscrito, antes da impressão, para dele receber uma benção especial. Consoante o desejo do Sumo Pontífice, tratamos a questão da vocação sacerdotal sob os seus diversos aspectos e, tanto quanto possível, de maneira simples e prática, afim de pô-la ao alcance de todos. Por isso, ao mesmo tempo que estabelecendo as relações estreitas que unem o Sacerdote a Jesus, o Sumo Sacerdote, e relembrando frequentemente esta grande verdade, para dar do Sacerdócio uma justa e santa noção, encaramos a vocação sacerdotal em suas relações múltiplas com o eleito, com a família e com a sociedade, Se a graça do Sacerdócio é a maior que possa ser feita a uma alma, também não há maior honra para uma família, nem mais preciosa benção para a sociedade, do que possuir mais um Sacerdote em seu seio. Donde a importância da escolha judiciosa das vocações sacerdotais e da sua formação, e o dever que às famílias como às almas cristãs incumbe de favorecê-las, exigindo a santidade no Sacerdote, não fazemos mais do que tirar uma conclusão lógica do caráter da missão deste, se é urgente ver multiplicar-se o número dos Sacerdotes, mais urgente ainda é ter santos Sacerdotes que honrem o seu Sacerdócio e operem frutos de salvação. Existem, contudo, outras condições necessárias para tornar frutuoso o ministério sacerdotal, e que cumpre ter em conta no curso da formação clerical. Indicamo-las, e não cremos que se possa descurar impunemente qualquer delas.
A questão das vocações sacerdotais é ama das mais graves dos tempos atuais. Compreendem-se as solicitações do Nosso Santo Padre o Papa a esse respeito. Quem, pois, entre, seus filhos não teria a peito compartilhar-lhe os sentimentos e secundar-lhe os esforços? Sua Santidade Pio XI exprimiu o desejo de ver esta obra espalhar-se por toda parte, nos Seminários e no seio das famílias. Depois de examiná-la, dizia-nos um dos mais eminentes teólogos de Roma que lhe apressássemos a impressão, na certeza do bem que acreditava dever ela produzir. Possam estas páginas concorrer para a glória de Jesus, o Sumo Sacerdote, obtendo para a Santa Igreja Sacerdotes numerosos e santos!
Filialmente as colocamos sob a proteção da Santíssima Virgem, Rainha do Clero, a quem Jesus confiou a formação e o cuidado das almas sacerdotais.
M . E . de la Croix .
Paris, 1.° de Maio de 1926.
<<< Capítulo Anterior Próximo Capítulo >>> (04/06/14)POSTADO POR RODRIGO LUNA ÀS 11:31
ÍNDICE DO LIVRO A SELVA DE SANTO AFONSO DE LIGÓRIO
ÍNDICE DO LIVRO A SELVA DE SANTO AFONSO DE LIGÓRIO
ÍNDICE - A SELVA
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Boa leitura!
PRIMEIRA PARTE
Alto posto ocupado pelo padre e conclusão
IMPORTÂNCIA DAS FUNÇÕES SACERDOTAIS
Mede-se a dignidade do padre pelas altas funções que ele exerce. São os padres escolhidos por Deus, para tratarem na terra de todos os seus negócios e interesses; é uma classe inteiramente consagrada ao serviço do divino Mestre, diz São Cirilo de Alexandria. Também Santo Ambrósio chama ao ministério sacerdotal uma "profissão divina". O sacerdote é o ministro que o próprio Deus estabeleceu como embaixador público de toda a Igreja junto dele, para o honrar e obter da sua bondade as graças necessárias a todos os fieis. Não pode a Igreja inteira, sem os padres, prestar a Deus tanta honra, nem obter dele tantas graças, como um só padre que celebra uma Missa. Com efeito, sem os padres, não poderia a Igreja oferecer a Deus sacrifício mais honroso que o da vida de tods os homens: mas o que era a vida de todos os homens, comparada com a de Jesus Cristo, cujo sacrifício tem um valor infinito? O que são todos os homens diante de Deus senão um pouco de pó, ou antes um nada? O profeta Isaías diz: "São como uma gota de água... e todas as nações são diante Dele como se não fossem" (Is 40, 15-17). Assim, o sacerdote que celebra uma Missa rende a Deus uma honra infinitamente maior, sacrificando-lhe Jesus Cristo, do que se todos os homens, morrendo por Ele, lhe fizessem o sacrifício das suas vidas. Mais ainda, por uma só Missa, dá o sacerdote a Deus maior glória do que lhe têm dado e hão de dar todos os Anjos e Santos do Paraíso, incluindo também a Virgem Santíssima, porque não lhe podem dar um culto infinito como o faz um sacerdote celebrando no Altar.
Além disso, o padre que celebra oferece a Deus um tributo de reconhecimento condigno da sua bondade infinita, por todas as graças que Ele há sempre concedido, mesmo aos bem-aventurados que estão no Céu. Este reconhecimento condigno nem todos os bem-aventurados juntos o poderiam prestar, de modo que, ainda sob este ponto de vista, a dignidade do padre está acima de todas as dignidades, sem excetuar as do Céu. Ainda mais, o padre é um embaixador enviado pelo universo inteiro como intercessor junto de Deus para obter as suas graças para todas as criaturas; assim fala São João Crisóstomo. Santo Efrém ajunta que o padre trata familiarmente com Deus. Para o padre, numa palavra, não há nenhuma porta fechada.
Jesus Cristo morreu para fazer um padre. Não era necessário que o Redentor morresse para salvar o mundo: uma gota de sangue, uma lágrima, uma prece lhe bastava para salvar todos os homens, porque, esta prece dum valor infinito, era suficiente para salvar, não um mundo, mas milhares de mundos. Pelo contrário, foi necessária a morte de Jesus Cristo para fazer um padre: pois, de outro modo, onde se encontraria a Vítima que os padres da lei nova oferecem hoje a Deus, Vítima Santíssima, sem mancha, só por si suficiente para honrar a Deus duma maneira condigna de Deus? O Sacrifício da vida de todos os anjos e de todos os homens não seria capaz, como acabamos de dizer, de prestar a Deus a honra infinita que lhe presta um padre com uma só Missa.
POSTADO POR RODRIGO LUNA ÀS 00:01
A DIGNIDADE DO PADRE (SANTO AFONSO DE MARIA LIGÓRIO)I. Idéia da dignidade sacerdotal
A DIGNIDADE DO PADRE
(SANTO AFONSO DE MARIA LIGÓRIO)
(A Selva, Parte I, Capítulo I.)
I. Idéia da dignidade sacerdotal
Diz Sto. Inácio, mártir, que a dignidade sacerdotal tem a supremacia entre todas as dignidades criadas. Santo Efrém exclama: “É um prodígio espantoso a dignidade do sacerdócio, é grande, imensa, infinita. Segundo S. João Crisóstomo, o sacerdócio, embora se exerça na terra, deve ser contado no número das coisas celestes. Citando Sto. Agostinho, diz Bartolomeu Chassing que o sacerdote, alevantado acima de todos os poderes da terra e de todas as grandezas do Céu, só é inferior a Deus. E Inocêncio III assegura que o sacerdote está colocado entre Deus e o homem; é inferior a Deus, mas maior que o homem.
Segundo S. Dionísio, o sacerdócio é uma dignidade angélica, ou antes divina; por isso chama ao padre um homem divino. Numa palavra, concluí Sto. Efrém, a dignidade sacerdotal sobreleva a tudo quanto se pode conceber.
Basta saber-se que, no dizer do próprio Jesus Cristo, os padres devem ser tratados como a sua pessoa: Quem vos escuta, a mim escuta; e quem vos despreza, a mim despreza. Foi o que fez dizer ao autor da Obra imperfeita: Honrar o sacerdote de Cristo, é honrar o Cristo; e fazer injúria ao sacerdote de Cristo, é fazê-la a Cristo”.Considerando a dignidade dos sacerdotes, Maria d’Oignies beijava a terra em que eles punham os pés.
II. Importância das funções sacerdotais
Mede-se a dignidade do padre pelas altas funções que ele exerce. São os padres escolhidos por Deus, para tratarem na terra de todos os seus negócios e interesses; é uma classe inteiramente consagrada ao serviço do divino Mestre, diz S. Cirilo de Alexandria. Também Sto. Ambrósio chama ao ministério sacerdotal uma “profissão divina”. O sacerdote é o ministro, que o próprio Deus estabeleceu, como embaixador público de toda a Igreja junto dele, para o honrar, e obter da sua bondade as graças necessárias a todos os fiéis.
Não pode a Igreja inteira, sem os padres, prestar a Deus tanta honra, nem obter dele tantas graças, como um só padre que celebra uma missa. Com efeito, sem os padres, não poderia a Igreja oferecer a Deus sacrifício mais honroso que o da vida de todos os homens: mas o que era a vida de todos os homens, comparada com a de Jesus Cristo, cujo sacrifício tem um valor infinito? O que são todos os homens diante de Deus senão um pouco de pó, ou antes um nada? Isaías diz: São como uma gota de água... e todas as nações são diante dele, como se não fossem.
Assim, o sacerdote que celebra uma missa rende a Deus uma honra infinitamente maior, sacrificando-lhe Jesus Cristo, do que se todos os homens, morrendo por ele, lhe fizessem o sacrifício das suas vidas. Mais ainda, por uma só missa, dá o sacerdote a Deus maior glória, do que lhe têm dado e hão de dar todos os anjos e santos do Paraíso, incluindo também a Virgem santíssima; porque não lhe podem dar um culto infinito, como o faz um sacerdote celebrando no altar.
Além disso, o padre que celebra oferece a Deus um tributo de reconhecimento condigno da sua bondade infinita, por todas as graças que ele há sempre concedido, mesmo aos bem-aventurados que estão no Céu. Este reconhecimento condigno nem todos os bem-aventurados juntos o poderiam prestar; de modo que, ainda sob este ponto de vista, a dignidade do padre está acima de todas as dignidades, sem excetuar as do Céu.
Mais, o padre é um embaixador enviado pelo universo inteiro, como intercessor junto de Deus, para obter as suas graças para todas as criaturas; assim fala S. João Crisóstomo. Santo Efrém ajunta que o padre trata familiarmente com Deus. Para o padre, numa palavra, não há nenhuma porta fechada.
Jesus Cristo morreu para fazer um padre. Não era necessário que o Redentor morresse para salvar o mundo: uma gota de sangue, uma lágrima, uma prece lhe bastava para salvar todos os homens; porque, sendo esta prece dum valor infinito, era suficiente para salvar, não um mundo, mas milhares de mundos.
Pelo contrário, foi necessária a morte de Jesus Cristo para fazer um padre: pois, de outro modo, — onde se encontraria a Vítima que os padres da lei nova oferecem hoje a Deus, Vítima santíssima, sem mancha, só por si suficiente para honrar a Deus duma maneira condigna de Deus? O sacrifício da vida de todos os anjos e de todos os homens não seria capaz, como acabamos de dizer, de prestar a Deus a honra infinita, que lhe presta um padre com uma só missa.
III. Excelência do poder sacerdotal
Mede-se também a dignidade do padre pelo poder que ele exerce sobre o corpo real e o corpo místico de Jesus Cristo.
Quanto ao corpo real, é de fé que no momento em que o padre consagra, o Verbo encarnado se obrigou a obedecer-lhe, vindo às suas mãos sob as espécies sacramentais. Causou espanto que Deus obedecesse a Josué, e mandasse ao sol que se detivesse à sua voz, quando ele disse: Sol! fica-te imóvel diante de Gabaon... E o sol deteve-se no meio do Céu.
Mas é muito maior prodígio que Deus, em obediência a poucas palavras do padre, desça sobre o altar, ou a qualquer parte em que o sacerdote o chame, quantas vezes o chamar, e se ponha entre as suas mãos, embora esse sacerdote seja seu inimigo! Aí permanece inteiramente à disposição do padre, que pode transportá-lo à sua vontade dum lugar para outro, encerrá-lo no tabernáculo, expô-lo no altar, ou ministrá-lo aos outros.
É o que exprime com admiração S. Lourenço Justiniano, falando dos padre: “Bem alto é o poder que lhes é dado! Quando querem, demudam o pão em corpo de Cristo: o Verbo encarnado desde do Céu e desce verdadeiramente à mesa do altar! É-lhes dado um poder que nunca foi outorgado aos anjos. Estes conservam-se junto do trono de Deus; os sacerdotes têm-no nas mãos, dão-no ao povo e eles próprios o comungam”.
Quanto ao corpo místico de Jesus Cristo, que se compõe de todos os fiéis, tem o sacerdote o poder das chaves: pode livrar do inferno o pecador, torná-lo digno do Paraíso, e, de escravo do demônio, fazê-lo filho de Deus. O próprio Jesus Cristo se obrigou a estar pela sentença do padre, em recusar ou conceder o perdão, conforme o padre recusar ou dar a absolvição, contanto que o penitente seja digno dela.
De modo que o juízo de Deus está na mão do padre, diz S. Máximo de Turim. A sentença do padre precede, ajuda S. Pedro Damião, e Deus a subscreve. Assim, conclui S. João Crisóstomo, o Senhor supremo do universo não faz senão seguir o seu servo, confirmando no Céu tudo quanto ele decide na terra.
Os padres, diz Sto. Inácio, mártir, são os dispensadores das graças divinas e os consócios de Deus. E, segundo S. Próspero, são a honra e as colunas da Igreja, portas e porteiros do Céu.
Se Jesus Cristo descesse a uma igreja, e se sentasse num confessionário para administrar o sacramento da Penitência, ao mesmo tempo que um padre sentado no outro, o divino Redentor diria: Ego te absolvo (Eu te absolvo) o padre diria o mesmo: Ego te absolvo (Eu te absolvo); e os penitentes ficariam igualmente absolvidos, tanto por um como pelo outro.
Que honra para um súdito, se o seu rei lhe desse poder para livrar da prisão quem lhe aprouvesse! Mas muito maior é o poder dado pelo Padre Eterno a Jesus Cristo, e por Jesus Cristo aos padres, para livrarem do inferno, não só os corpos, mas até as almas; esta reflexão é de S. João Crisóstomo.
IV. A dignidade do padre excede todas as dignidades criadas
A dignidade sacerdotal é pois neste mundo a mais alta de todas as dignidades, nota Sto. Ambrósio. Ela excede, diz S. Bernardo, todas as dignidades dos imperadores e dos anjos. Santo Ambrósio ajunta que a dignidade do padre sobreleva à dos reis como o ouro ao chumbo. A razão disso, segundo S. João Crisóstomo, é que o poder dos reis só se estendem aos bens temporais e aos corpos, ao passo que o dos padres abrange os bens espirituais e as almas. Donde se conclui, em conformidade com o que fica exposto, que o poder ou a dignidade do padre é tão superior à dos príncipes como a alma ao corpo; era o que já tinha dito o Papa S. Clemente.
É uma glória para os reis da terra honrar os padres; é isso próprio dum bom príncipe, diz o Papa Marcelo. Os reis, diz Pedro de Blois, apressam-se a dobrar o joelho diante do sacerdote, a beijar-lhe a mão, e a abaixar humildemente a cabeça para receberem a sua bênção.
Reconhecem assim a superioridade do sacerdócio, diz S. João Crisóstomo. Conta Barónio que Leôncio, bispo de Trípoli, tendo sido chamado à côrte pela imperatriz Eusébia, lhe mandara dizer que, se queria a visita dele, era necessário que primeiro aceitasse as seguintes condições: que à sua chegada a imperatriz desceria do seu trono, viria inclinar a cabeça sob as suas mãos, pedir-lhe e receber dele a bênção; depois ele se assentaria, e ela só o poderia fazer com permissão sua. Terminava por dizer-lhe que, a não se darem essas condições, jamais poria os pés na sua côrte.
Convidado para a mesa do imperador Máximo, S. Martinho brindou primeiro o seu capelão e só depois o imperador. No Concílio de Nicéia, quis Constantino Magno ocupar o último lugar, depois de todos os sacerdotes, num assento menos elevado; e ainda não quis assentar sem permissão deles. O santo rei Boleslau tinha pelos sacerdotes uma tal veneração que não se assentava na presença deles.
A dignidade sacerdotal ultrapassa até a dos anjos, razão por que também estes a veneram. Velam os anjos da guarda pelas almas que lhe estão confiadas, de modo que, se elas se encontram em estado de pecado mortal, excitam-nas a recorrer aos sacerdotes, esperando que eles pronunciem a sentença de absolvição; assim fala S. Pedro Damião.
Se um moribundo pedir a assistência de S. Miguel, bem poderá, é verdade, este glorioso arcanjo expulsar os demônios que o cercarem, mas não quebrar-lhes as cadeias, se não vier um padre que o absolva. Acabando S. Francisco de Sales de conferir a ordem de presbítero a um digno clérigo, notou à saída que ele trocava algumas palavras com outra pessoa, a quem queria ceder a passo. Interrogado pelo Santo, respondeu ao jovem sacerdote que o Senhor o tinha honrado com a presença visível do seu anjo da guarda.
Este antes da sua elevação ao sacerdócio caminhava à sua direita e precedia-o, mas agora tomava a esquerda e recusava caminhar diante; por isso ele se tinha ficado à porta, numa santa contenda com o anjo. S. Francisco de Assis dizia: “Se eu visse um padre, primeiro ajoelharia diante do padre, e depois diante do anjo”.
Mais ainda, o poder do padre excede até o da santíssima Virgem; porque a Mãe de Deus pode pedir por uma alma e obter-lhe quanto quiser pelas suas súplicas, mas não pode absolvê-la da menor falta. Escutemos Inocêncio III: “Embora a santíssima Virgem esteja elevada acima dos apóstolos, não foi, contudo, a ela, mas a eles que o Senhor confiou as chaves do reino dos céus”.
Por outro lado, S. Bernardino de Sena, dirigindo-se a Maria, diz igualmente que Deus elevou o sacerdócio acima dela; e eis a razão que dá: Maria concebeu Jesus Cristo uma só vez; o padre pela consagração concebe-o, por assim dizer, quantas vezes quer; de modo que, se a pessoa do Redentor ainda não existisse no mundo, o padre, pronunciando as palavras da consagração, produziria realmente esta pessoa sublime do Homem-Deus.
Daqui esta bela exclamação de Sto. Agostinho: “Ó venerável dignidade a dos sacerdotes, entre cujas mãos o Filho de Deus encarna como encarnou no seio da Virgem!”. Por isso S. Bernardo, entre muitos outros, chama aos padres pais de Jesus Cristo. De fato, são causa da existência real da pessoa de Jesus Cristo na Hóstia consagrada.
De certo modo, pode o padre dizer-se criador do seu Criador, porque pronunciando as palavras da consagração, cria Jesus Cristo sobre o altar, onde lhe dá o ser sacramental, e o produz como vítima para oferecê-lo ao Padre eterno. Para criar o mundo, Deus só disse uma palavra: Disse, e tudo foi feito; do mesmo modo, basta que o sacerdote diga sobre o pão: Isto é o meu corpo; = Hoc est corpus meum; e eis que o pão deixou de ser pão: é o corpo de Jesus Cristo. S. Bernardino de Sena vê nesta maravilha um poder igual ao que criou o universo. E Sto. Agostinho exclama de assombro: “Ó venerável e sagrado poder o das mãos do padre! Ó glorioso ministério! Aquele que me criou a mim, deu-me, se ouso dizê-lo, o poder de o criar a ele; e ele que me criou sem mim, criou-se a si por meio de mim!”
Assim como a palavra de Deus criou o céu e a terra, assim também, diz S. Jerônimo, as palavras do padre criam Jesus Cristo. Tão alta é a dignidade do padre que vai até abençoar sobre o altar o próprio Jesus, como Vítima para oferecer ao Padre eterno. Segundo nota o Pe. Mansi, no sacrifício da Missa, Jesus Cristo é considerado como Sacrificador principal e como Vítima: como Sacrificador abençoa o padre; mas, como Vítima, é abençoado pelo padre.
V. O alto posto ocupado pelo padre
A excelência da dignidade sacerdotal mede-se também pelo alto posto que o padre ocupa. No sínodo de Chartres, celebrado em 1550, é chamado “a morada dos santos”. Dá-se aos padres o título de vigários de Jesus Cristo, e assim os chama Sto. Agostinho, porque fazem as suas vezes na terra.
Tal é também a linguagem empregada por S. Carlos Borromeu no sínodo de Milão:Somos nós os embaixadores de Jesus Cristo; é Deus quem pela nossa boca vos exorta. Foi o que o próprio Apóstolo declarou. Subindo ao Céu, o divino Redentor deixou os sacerdotes para serem na terra os mediadores entre Deus e os homens, particularmente ao altar, como diz S. Lourenço Justiniano: “Deve o padre aproximar-se do altar como o próprio Jesus Cristo”. S. Cipriano diz: “O padre ocupa verdadeiramente o lugar e desempenha o ofício do Salvador; e S. Crisóstomo: Quando virdes o sacerdote a oferecer o sacrifício, vêde a mão de Jesus Cristo estendida dum modo invisível”.
Ocupa também o padre o lugar do Salvador, quando remite os pecados, dizendo: Ego te absolvo (Eu te absolvo). O grande poder que o Padre eterno deu ao seu divino Filho, comunica-o Jesus Cristo aos padres, De suo vestiens sacerdotes, segundo a expressão de Tertualiano.
Para perdoar um pecado, é necessário o poder do Altíssimo, como a Igreja o faz ouvir nas suas orações.
Tinham, pois, razão os judeus, quando, ao verem que Jesus Cristo perdoava os pecados ao paralítico, disseram: “Quem senão Deus pode perdoar os pecados?” Mas esta graça que só Deus pode fazer pela sua onipotência, o padre a pode também dispensar por estas palavras: Ego te absolvo a peccatis tuis; (Eu te absolvo dos teus pecados), porque a forma, ou, se o quiserem, as palavras da forma, pronunciadas pelo padre nos sacramentos, operam imediatamente o que significam.
Qual seria o nosso espanto, se víssemos um homem que, mediante algumas palavras, tivesse a virtude de tornar branca a pele dum negro! O padre faz mais, quando diz: Eu te absolvo, — porque no mesmo instante demuda em amigo um inimigo de Deus, e um escravo do inferno num herdeiro do Céu.
O cardeal Hugues põe na boca do Senhor estas palavras, que representa dirigidas a um sacerdote ao absolver um pecador: Eu fiz o céu e a terra, mas dou-te o poder para fazeres uma criação mais nobre e melhor: duma alma manchada pelo pecado, faze uma alma nova (Faze uma alma nova, quer dizer, faze que uma alma pecadora e escrava de Lúcifer se torne minha filha). Mandei à terra que produza os seus frutos; dou-te um poder melhor, o de produzires frutos nas almas.
Privada da graça é a alma como uma árvore seca, que não pode produzir nenhum fruto; mas, recobrando a graça pelo ministério do padre, produz frutos de vida eterna. Santo Agostinho ajunta que a justificação dum pecador é uma obra maior que a de criar o céu e a terra. O Senhor diz a Jó: Tendes vós um braço como o de Deus, e uma voz trovejante como a sua? Ora, quem é que tem um braço semelhante ao de Deus e como Deus faz trovejar a sua voz? É o padre que, dando a absolvição, se serve do braço e da voz do próprio Deus, para livrar do inferno as almas.
Lemos em Sto. Ambrósio que o padre, quando absolve, opera o mesmo que faz o Espírito Santo, quando justifica as almas. Eis por que o divino Redentor, ao conferir aos padres o poder de absolver, lhes deu o seu Espírito: Soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo: aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos. Deu-lhes o seu Espírito que santifica as almas, e estabeleceu-os cooperadores seus, conforme a expressão do Apóstolo. E S. Gregório ajunta: “Receberam o poder judicial supremo, para em nome de Deus, remirem ou reterem os pecados aos outros”. Razão tem pois S. Clemente de chamar ao padre um Deus na terra. Davi disse: Veio Deus à assembléia dos deuses.
Segundo a explicação de Sto. Agostinho, os deuses de que fala são os sacerdotes. E eis o que diz Inocêncio III: “Os padres se chamam deuses, por causa da dignidade do seu ofício”.
VI. Conclusão
Mas, que horror ver, numa mesma pessoa, uma dignidade sublime e uma vida vergonhosa, uma profissão divina e obras de iniqüidade! Para longe de nós esta desordem, exclama Sto. Ambrósio; que as nossas obras estejam de acordo com o nosso nome! O que é uma alta dignidade num indigno, senão uma pérola caída na lama, pergunta Salviano?
O Apóstolo nos adverte que ninguém deve ser tão audacioso que se eleve ao sacerdócio, sem a vocação divina de Aarão, pois que nem Jesus Cristo se quis arrogar a honra do sacerdócio, mas esperou que seu Pai o chamasse a essa dignidade.
Poder das mãos sacerdotais
Poder das mãos sacerdotais
Elas são, na terra, as mais poderosas de todas as mãos.
Mãos que dão a vida da Graça, mãos que renovam essa graça pelo perdão divino.
Mãos que não afagam um rosto querido de mulher, mas que abençoam, em nome de Deus, o amor que Deus faz brotar entre ela e um outro homem.
Mãos que iluminam, com a luz do Evangelho, o amor matrimonial e o faz aproximar-se do Amor de Deus Criador.
Mãos que não terão filhos ao colo, mas que colocarão no colo de seus pais os filhos, que não tendo pedido para nascer, não encontraram para si um pouco de tempo na “agenda” de seus pais.
Mãos que abençoam, enxugando lágrimas de tantas pessoas esmagadas nos revezes da vida. Mas que ficam sozinhas, na solidão, para enxugar suas próprias lágrimas, quando as coisas não correm bem entre “elas” e o rebanho a elas confiado, quando a insistência da vida biológica ameaça a existência da vida espiritual, quando a insistência da morte biológica põe a perder os entes mais queridos.
Mãos que curam os enfermos e lhes devolvem a esperança de viver.
Mãos que fortalecem os fracos com o Pão dos Fortes: a Eucaristia.
Santas Mãos Sacerdotais!
Obrigada, Senhor, pelas santas mãos dos Sacerdotes que Vos traz até nós todos os dias, alimentando nossa vida espiritual até chegarmos à vida eterna!
A todos os Sacerdotes meus parabéns pela nobre e grande missão que receberam de Jesus.
Mãos do sacerdote, luz, calor, guarida, Para cada morte trazem uma vida, Para cada vida acendem mil fanais. Mãos do sacerdote, báculo que arrima, Bálsamo que alenta, asa que sublima, Cofre dos consolos, mãos sacerdotais.
CORAÇÃO E MÃOS SACERDOTAIS
CORAÇÃO SACERDOTAL
Germano de Novais
Um coração sacerdotal deve ser um cálice cheio de Jesus. Um relicário precioso em que Cristo almeje dascansar das ingratidões humanas.
Um coração sacerdotal deve ser grande como o oceano para receber todos os rios dos sofrimentos e da miséria que afligem e envolvem os outros corações. Um coração que se desdobre em gestos de paz para as almas sofredoras. Um coração que tenha para todos uma palavra de conforto, uma prece de amigo, uma bênção de perdão.
Um coração sacerdotal deve revestir-se da pureza dos lírios trescalantes de frescura, donde se evole o suave aroma da caridade.
Um coração sacerdotal deve ser um lago repleto de bondade, de alegria, misericórdia, perdão e amor. Sempre calmo, capaz de refletir o céu estrelado das almas. E ainda sempre tranqüilo, mesmo depois de receber dentro de si as torrentes caudalosas dos pecados e dos crimes da humanidade pecadora.
Um coração sacerdotal deve ser uma patena viva sobre a qual repousem todos os corações humanos dispostos a oferecer-se, juntamente com a Vítima divina dos nossos Altares, e ao Pai dos Céus.
Um coração bondoso como um coração materno, amigo como um coração de pai, generoso como um coração consagrado a Deus. Um coração que tremule de ternura e de amor para com a mais bela das Virgens e a mais carinhosa das Mães. Um coração que procure espalhar e irradiar a beleza, o perdão e o amor infinito do Coração de Jesus, Rei e Centro de todos os corações, e modelo de todo coração sacerdotal.
MÃOS SACERDOTAIS
Mãos do sacerdote, mãos predestinadas,
Mãos de Jesus Cristo, mãos divinizadas,
Feitas lá no céu de essências imortais.
Mãos do sacerdote, feitas sob modelo
Que Jesus traçara cheio de desvelo,
Desde todo sempre, mãos sacerdotais.
Mãos do sacerdote para a cruz voltadas,
Mãos de lírios roxos sobre a cruz pregadas,
Sempre, sempre abertas, sem fechá-las mais,
Mãos de sofrimentos, mãos de mil suplícios,
Têm as veias rubras feitas de cilícios,
Mãos de mil calvários, mãos sacerdotais.
Mãos do sacerdote, mãos de toda hora,
Quando a noite é negra, quando brlha a aurora,
Quando reina a calma, quando há temporais,
Mãos de sacerdote, mãos de toda gente,
Mãos do fervoroso, mãos do indifenrente,
Mãos dos sofredores, mãos sacerdotais.
Mãos do sacerdote, mãos feitas de lodos,
Frágeis, passageiras, como as mãos de todos,
Filhas do pecado como as dos demais,
Mãos feitas de lodo, frágeis, pecadoras...
Mãos purificadas, santas, redentoras...
Beatificantes, mãos sacerdotais.
Quantas mãos existem. Que diversidade!
Mãos para a virtude, mãos para a maldade,
Mãos cheias de lodo, mãos cheias de luz.
Mãos que ferem, mãos que fecham as feridas,
Mãos que dão a morte, mãos que dão a vida,
Mãos que dão o diabo, mãos que dão Jesus.
Quantas mãos existem. Que diversidade!
Mas somente vós não sois como as demais.
Pois somente vós levais à eternidade;
E há recantos n'alma em que só vós tocais.
E há espinhos fundos que ninguém alcança,
E há doridos prantos que ninguém estanca
A não serdes vós, ó mãos sacerdotais!
Mãos do sacerdote, luz, calor, guarida,
Para cada morte trazem uma vida,
Para cada vida acendem mil fanais.
Mãos do sacerdote, báculo que arrima,
Bálsamo que alenta, asa que sublima,
Cofre dos consolos, mãos sacerdotais.
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